Qual a distância entre Brasil e Afeganistão?

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Aline Melo

Como se mede a distância? Em metros, quilômetros, milhas? O que nos distancia ou nos aproxima? Nossas diferenças ou nossas semelhanças? O mundo assistiu com medo e tristeza a retomada do Afeganistão pelo Talibã, grupo fundamentalista islâmico que já havia governado o País entre 1996 e 2001. Com uma interpretação radical do Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos, implantou um governo violento e aniquilou de forma geral os direitos humanos, em especial os direitos das mulheres, que não podiam mais trabalhar, estudar, sair na rua sem a companhia de um homem, nem usar roupas que mostrassem qualquer parte do corpo, adotando a burca como vestimenta obrigatória.

Após 20 anos de ocupação americana, iniciada após o atentado às torres do World Trade Center, em 11 de setembro de 2001, as mulheres já ocupavam novamente postos de trabalho, escolas e faculdades. Não estou dizendo que a ocupação era o melhor para o País. Havia inúmeros protestos contra a ação norte-americana, além de uma crise econômica persistente, mas ao menos em grandes centros, pelo que relatam os moradores, havia um clima mais favorável de respeito aos direitos humanos.

Apesar de representantes do Talibã terem declarado que não vão oprimir as mulheres como foi feito no primeiro governo – deixando claro que os direitos serão respeitos dentro do que é permitido pelo islamismo – desde 15 de agosto praticamente não são vistas mulheres circulando pelas ruas, tamanho o medo dessa parcela da população.

Se tudo isso nos revolta e nos traz um sentimento de que é preciso lutar por todas as mulheres do mundo, neste momento especificamente pelas afegãs, devemos estar cientes que o Brasil tem adotado posições de apoio à governos fundamentalistas e contra o direito das mulheres. Em 17 de agosto, durante votação no Conselho de Direitos Humanos da ONU (Organização das Nações Unidas), a diplomacia brasileira se absteve de opinar diante de emendas de países como Rússia, Egito e Arábia Saudita, que atacam esses direitos.

As solicitações pediam que fossem excluídos o protagonismo de jovens ativistas e defensoras dos direitos humanos na construção de políticas públicas voltadas à igualdade de gênero. Outra emenda sugeria a retirada de menção à garantia de acesso a informações e serviços sobre saúde sexual e reprodutiva nas respostas dos Estados à pandemia de Covid-19.

A maioria dos países não acatou os pedidos, mas ao escolher não se manifestar, o Brasil vai figurar para sempre nos arquivos da ONU como um nação que se alinhou à Líbia, Afeganistão e Qatar, que abriu mão de garantir os direitos das mulheres quando foram convocados a se expressar. As mulheres levaram décadas para conquistar alguns direitos, que podem ser perdidos de uma hora para outra. Que todos nós estejamos atentos, ou o Afeganistão pode estar logo ali.

Foto: David Mark por Pixabay

 



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