Ampulheta da vida

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Miriam Gimenes

Depois que recebeu o diagnóstico de câncer, o jornalista Gilberto Dimenstein passou a ver seus dias com outra lente; a experiência virou livro emocionante
 
Gilberto Dimenstein sempre foi muito conhecido por seu trabalho jornalístico e de publicação de livros. Dono de uma carreira consolidada, não apenas trabalhou em reportagens importantes para a história do País  – com passagem em renomados veículos de comunicação – como também foi criador do site Catraca Livre. 
 
 
Mas, após um sonho, resolveu fazer exames e descobriu ter câncer no pâncreas com metástase no fígado. Com o diagnóstico ele tinha duas escolhas: se entregar ou enfrentar. Ficou com a segunda opção, desacelerou o trabalho e ressignificou o restante dos seus dias, que tiveram fim no dia 29 de maio do ano passado. Da experiência escreveu um livro, Os Últimos Melhores Dias de Minha Vida (Record) em parceria com sua mulher, a também jornalista Anna Penido, que tratou de terminá-lo quando Gilberto  partiu. 
 
Assim como o Dimenstein, é impossível terminar a publicação e ter a mesma ótica sobre a vida. Confira, a seguir, o relato emocionante de Anna sobre a confecção da obra:
“O ano de 2020 acabara de começar. Estávamos passando o feriado de Réveillon na Serra da Mantiqueira. Gilberto havia tomado o que seria seu último banho de cachoeira no dia anterior. Comentava sobre o prazer que aquela pequena aventura havia lhe proporcionado quando o celular tocou. Era o jornalista Carlos Andreazza, da Editora Record, convidando-o para escrever um livro sobre sua experiência com o câncer.
 
O diagnóstico nos surpreendera seis meses antes. Gilberto havia retirado um tumor ainda bem pequeno do pâncreas, mas um único linfonodo conseguira escapar pelas vias biliares e se proliferar no seu fígado. A primeira quimioterapia não havia funcionado e já estávamos, há alguns meses, tentando uma outra droga, que lhe arrancava os pelos e a energia. Mas nada era capaz de abalar a sua disposição para aproveitar o máximo que a vida poderia lhe oferecer.
 
Foi essa atitude que causou uma verdadeira comoção, quando Gilberto decidiu falar publicamente e com muita franqueza e profundidade sobre a sua experiência ao se deparar com a proximidade da morte. Em entrevista para o jornal Folha de S. Paulo, no qual trabalhou por mais de 20 anos, discorreu sobre dores e encantamentos, impotência e propósito, entrega e reconciliação. Falou ainda sobre o amor e o quanto este sentimento poderoso é capaz de curar a alma quando são incuráveis os males do corpo.
 
 
A entrevista abriu as comportas para a expressão das muitas reflexões que borbulhavam em sua mente sempre inquieta. E ele queria deixar fluir aquela torrente de ideias e sentimentos que se avolumavam também em seu peito. Por isso, entusiasmou-se com o convite para escrever o livro. Sua única condição para abraçar a empreitada era contar com o apoio de um jornalista, pois já se sentia bastante debilitado para assumir o trabalho sozinho.
 
Foi a deixa que eu precisava para entrar nesse enredo. E eu me atraquei a ela como quem pula em um cavalo selado que passa a galope, oferecendo uma oportunidade que nunca mais se repetirá. Além de sua parceira de vida, me tornei também sua cúmplice na produção daquela que seria sua última obra.
Conheci Gilberto quando ele já era um jornalista famoso, e eu ainda dava os meus primeiros passos na profissão. Mais do que seus incríveis feitos como repórter investigativo, que desvendava e denunciava desmandos e ilicitudes da política nacional, o que me chamou a atenção foi o seu inconformismo com as injustiças sociais e seu compromisso genuíno em melhorar o mundo.
 
Também eu sonhava em usar minhas habilidades de comunicadora para conscientizar, educar, empoderar as pessoas, especialmente adolescentes e jovens constantemente ameaçados pela violação de direitos e pela falta de oportunidades. Queria usar a comunicação para divulgar projetos comunitários e jogar luzes sobre o sofrimento de seres humanos invisibilizados pela nossa capacidade de naturalizar o inaceitável.
 
Quando eu e Gilberto finalmente nos encontramos, a nossa afinidade de propósito se mostrou tão visceral quanto a nossa atração física, e nenhum obstáculo foi capaz de se interpor a estas duas forças que, mais tarde, pudemos compreender como manifestações de um amor que já vivia dentro de nós só esperando o momento do encontro para acontecer.
 
Já estávamos juntos havia duas décadas quando o câncer cruzou o nosso caminho, desestabilizando todas as nossas certezas, exceto a da incondicionalidade do nosso amor. E foi também para isso que nos serviu o projeto do livro, que se transformou em mais um dos nossos muitos rituais.
 
Uma vez a cada dois ou três dias, ele se acomodava na cama ou no sofá, como se deitasse no divã de um psicanalista. Eu ligava o gravador e as palavras fluíam cheias de clareza, emoção e poesia. Gilberto revisitava a sua vida desde a infância, e eu me sentia privilegiada de ser sua companheira em mais esta jornada. Eu o escutava e sentia os cheiros da Amazônia onde ele passava suas férias quando criança. Tinha vontade de aconchegá-lo quando falava do seu sentimento de inadequação durante a adolescência. Reconhecia as batalhas que teve que travar consigo mesmo para superar o que ele denominava de analfabetismo emocional.
 
Colecionamos mais de 20 horas de gravação, em que ele descrevia como se sentia ao perceber a areia escorrendo mais depressa pela ampulheta da vida. Como foi se deixando seduzir por prazeres simples, antes imperceptíveis, como acompanhar o desabrochar de uma flor, ouvir os pássaros cantar, sentir o vento no rosto durante um passeio de bicicleta, assistir ao pôr do Sol da varanda do nosso quarto. Falava do contentamento de ver o neto brincando no jardim da nossa casa e de se deixar cercar por uma rede de gentilezas e solidariedade, em que todo mundo tinha algo a oferecer, na tentativa de amenizar a sua provação.
 
Os relatos se prestaram ainda às mais lindas declarações de amor, aquelas que ouço recorrentemente, sempre que a minha saudade pede um pouco mais da sua presença. Escuto a sua voz falando dos nossos abraços na madrugada e estremeço como no nosso primeiro encontro a sós, quando ele sussurrou sua paixão em meu ouvido já completamente enfeitiçado.
 
Os testemunhos são a prova cabal de que Gilberto não trapaceou nem exagerou quando deu ao livro o título de Os Últimos Melhores Dias da Minha Vida. Foi assim que os vivemos e assim foram relatados nas páginas dessa nossa história de amor.
 
Só consegui começar a escrever depois que ele já havia partido. Prometi que seria rápida para que o livro fosse lançado no mesmo ano da sua morte, mas o fiz compreender que não havia tempo para a escrita quando o livro ainda precisava ser vivido. Quando ele se foi e, finalmente, me sentei em frente ao computador, fiquei completamente aparvalhada, sem ter ideia de por onde começar. Mas ele deu um jeito de me mandar mensagens por meio do sonho de outras pessoas. Dizia que sempre iluminaria o meu caminho e que o fluxo da vida me levaria aonde eu desejava chegar. Bastava que eu me disponibilizasse a navegá-lo. E foi assim que eu me joguei nas águas deste mar ainda desconhecido.
 
Depois de ouvir todos os relatos, a estrutura do livro foi se formando de maneira muito nítida, tanto na minha imaginação quanto nas páginas que saiam aos borbotões da minha impressora. No final da publicação, acrescentei ainda uma carta minha para ele. Mais uma vez, tive a sensação de que a nossa história já estava pronta e fiquei feliz de ter tido a coragem de deixá-la perpassar as minhas entranhas para poder ser contada e compartilhada com todos vocês.”
 



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