Parem de nos matar

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Aline Melo

A última semana de 2020 foi marcada por seis feminicídios. Em diferentes Estados do Brasil, mulheres de idades e profissões distintas foram mortas a tiros ou facadas. Em comum, os agressores: companheiros e ex-companheiros. Se é muito maior o número de mortes entre homens, seja por causas naturais ou violentas, é inegável que a violência doméstica e de gênero avança sobre as mulheres dia a dia, sem que haja uma real mobilização da sociedade que impeça os homens de nos matar.
 
As vítimas que citei no início deste artigo tinham nomes: Loni Priebe de Almeida, 74 anos; Viviane Vieira do Amaral, 45; Thalia Ferraz, 23; Evelaine Aparecida Ricardo, 29; Anna Paula Porfírio dos Santos, 45 anos; e Aline Arns, 38. De acordo com as notícias veiculadas sobre os casos, todos os crimes teriam sido motivados por ciúmes e/ou recusa por parte do homem pelo fim do relacionamento.
 
Talvez um dos casos de maior repercussão tenha sido o de Viviane, juíza que vivia no Rio de Janeiro e foi morta a facadas pelo ex-marido na frente das duas filhas do casal. Entre as muitas notas de pesar, o representante de uma associação de magistrados perguntou o que a sociedade poderia ter feito para evitar esse crime. No País que é o quinto no mundo em mortes de mulheres, me parece que faltam muitas coisas a serem feitas e, a principal delas é a educação.
 
Somente uma educação baseada nas questões de gênero, com foco na busca pela igualdade, será capaz de formar cidadãos que entendam que uma mulher nunca pertence a um homem. 
 
Há cerca de sete anos, o Brasil viveu uma verdadeira cruzada, com políticas de Norte a Sul do País fazendo campanhas pela retirada do termo “gênero” dos planos municipais de educação, que foram votados em 2015. Infladas por um discurso de ódio e baseados em mentiras como a ideia de que as escolas teriam banheiros unissex ou as crianças seriam incentivadas a serem gays, muitas câmaras municipais aprovaram planos onde não só não constavam qualquer iniciativa para discussão de gênero como citavam textualmente a proibição de abordagens nesse sentido.
 
Como falar sobre igualdade entre homens e mulheres sem citar as desigualdades que nos cercam e que estão relacionadas ao gênero? Como ignorar que as mulheres ainda são responsáveis pela maior parte do trabalho doméstico, mesmo quando exercem atividades remuneradas? Como ignorar que meninas de 12, 13 anos são sexualizadas e tratadas como mulheres, quando meninos na mesma idade ainda são vistos como crianças? Como abordar a questão da violência contra a mulher ignorando tudo isso?
 
É necessário que haja educação também para os adultos, cursos, formações, àa exemplo da ótima iniciativa do programa E Agora, José?, que começou atuando apenas com agressores condenados na Lei Maria da Penha, mas que está abrindo turmas para todo homem que se interessar pelo fim da violência contra a mulher (inscrições no link forms.gle/c4p9adScZEFAGoLY6).
 
Dados do Disque 100, serviço mantido pelo governo federal, mostram que no primeiro semestre de 2020, 42% dos casos de violações denunciados no Grande ABC ocorreram em ambiente doméstico. A pandemia certamente potencializou essa situação e muito em breve as estatísticas oficiais vão mostrar a ponta desse iceberg, uma vez que a maioria dos casos não chega a ser denunciada, pelo caráter privado em que ocorre.
 
O ano de 2021 está só começando e se eu puder fazer um pedido a cada um dos que me leem é que pensem sobre essa situação; reflitam que no Brasil, uma mulher é morta a cada nove horas, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Atuem contra o machismo, aquele do cotidiano, disfarçado de piadas e de brincadeiras. E parem de nos matar.
 



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