Força de vontade

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Miriam Gimenes

Maranhense com mobilidade reduzida já viajou 143 países e prepara livro contando a experiência
 
Por muitas vezes intempéries que temos de enfrentar durante a vida parecem não ter uma razão de ser. Mas há quem luta para ‘decifrar’ o significado delas. É o caso do engenheiro agrônomo Luiz Thadeu Nunes e Silva, 61 anos, que, após sofrer um acidente, passar por 43 cirurgias e aprender a andar de muletas, colocou uma meta para a vida, até então inimaginável: conhecer os 194 países existentes no mundo. E, desde que começou a empreitada, já conseguiu pisar em 143 deles. Confira, a seguir, o relato que deu à Dia-a-Dia Revista. 
 
 
“Em 2003, quando tinha 43 anos, peguei um táxi em um final de tarde aqui no Rio Grande do Norte. Era um táxi de linha (espécie de lotação), que vai entrando várias pessoas e saindo, muito usual no Nordeste. Acabou que ficou só eu. Estava no banco da frente, cinco minutos antes do acidente. O motorista parou em um posto e fui para o banco de trás. Assim que saiu, foi atender o celular e bateu de frente com um caminhão.  Quando acordei, umas três horas depois disso,  estava todo quebrado, com a minha perna esquerda com fratura exposta de fêmur, no assoalho de um utilitário. Haviam roubado tudo que era meu. Acordei e perguntei se foi um sonho. O rapaz que me socorreu contou do acidente e me levou para o hospital, em Natal.  Daí para frente foram quatro anos entre leitos hospitalares e cirurgias, em um total de 43, as últimas em São Paulo. Eu não sabia se ia voltar a andar. Dois médicos disseram que o melhor seria amputar a perna, para melhorar a mobilidade e, às vésperas da cirurgia, desisti. Fiquei com minhas duas pernas e tive de aprender a me readaptar, a andar de muletas. Aí começa toda essa história, me reinventei. 
 
Para mim não existia essa história de viajar. Só ia de férias, ou lazer. Até que um dos meus filhos foi morar na Irlanda e me chamou para ir para lá. Falei: ‘Você está louco?’. Me autoexilei durante o período de toda minha convalescênça. Só ia de casa para o hospital, não tive vida social. Não tinha nenhuma confiança em atravessar a rua. Hoje atravesso oceanos. Acabei topando ir com meu outro filho e, quando cheguei, eles me acompanharam por oito países. Quando voltei e desci em Guarulhos disse para mim mesmo: ‘é muito fácil viajar, quero ir de novo’. Quatro meses depois estava dentro de um avião. E aí veio a meta. Já conheço quase 90% da Europa, já visitei todos os continentes da Terra, 143 países. O único lugar que ainda não fui, que quase ninguém vai, é a Antártida. 
 
E o que ajudou é que durante toda minha vida eu soube lidar com dinheiro. Sou engenheiro, sempre trabalhei e tive meu salário, e parte dos meus ganhos foi guardada, como uma poupança para o futuro. Depois que houve o acidente direcionei parte desses  recursos para viagem. Tenho uma despesa fixa mensal de passagens aéreas, de compra de hotéis.
 
 
Aprendi também a usar milhas e a pesquisar bastante os preços pela internet. Uma viagem de volta ao mundo custa, no mínimo, R$ 30 mil. Mas, com informação, vou gastar R$ 12 mil. Tem inúmeros brasileiros que têm potencial de viagem e trocam experiências. Aos 61 anos descobri o mundo através da internet. Isso sem falar dos aplicativos, que me ajudam também a me comunicar. E com isso consegui pisar nos dois extremos da Terra, no Ushuaia (Argentina) e no Alasca. E é isso que tento passar para os outros, em palestras gratuitas que faço em colégios e hospitais. Chego para grupo de pessoas, que não tem muito objetivo na vida, e falo: ‘tenho 61 anos e ando o mundo inteiro de muletas, sozinho, não falo inglês. Tudo pela força de vontade.’ Estamos vivendo uma epidemia de pessoas com depressão, temos de reverter isso. 
 
Após o acidente, tinha a opção ficar em casa, com dor, reclamando.  Optei por não reclamar da vida e ter um objetivo, de ir cada vez mais longe. Hoje não tem um  lugar do mundo que eu não vá. Se o avião vai e tem um acento que consigo pagar, vou. Não fico remoendo problemas, convivo com a dor, aprendi isso, bastante com a ajuda da meditação. 
Se a perna dói aqui vai doer lá na China. Costumo falar isso porque as pessoas, por muito menos, reclamam. 
 
 
E reclamam de tudo. Peço calma. A vida é um jogo jogado a cada dia. O tempo vai se desenhando na tua frente. Até hoje me belisco quando chego no lugar, primeiro por gratidão. Poderia ter ficado com problema, sequela, ter amputado minha perna. Tudo isso poderia acontecer. Mas não aconteceu, fiquei no lucro. Quando comecei a viajar o mundo conspirou a meu favor. 
Tive de parar de viajar este ano por causa da pandemia, mas estou com oito passagens compradas. Em janeiro pretendo ir para Portugal, em Porto, lançar meu livro, contando todas essas experiências. Vou também levar uma exposição fotográfica, que está agora itinerando aqui no Maranhão. Já entrei para o Livro dos Recordes, tenho placa comemorativa no aeroporto do meu Estado, ganhei selo comemorativo dos Correios como o brasileiro mais viajado no mundo com mobilidade reduzida. Essa limitação que adquiri através do problema da perna me possibilitou a me reinventar e hoje verbalizo isso, o que me deixa muito feliz. Posso me definir como um viajante, não turista. Por isso, meu lema de vida é ‘Terra, aproveite enquanto estiver em cima dela.’”
 
 



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