As faces do machismo

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Aline Melo

O episódio recente da criança de 10 anos, moradora do Espírito Santo, que era violentada desde os 6 por um tio e ficou grávida, expôs diversas faces do machismo da nossa sociedade. Quando a Justiça autorizou a interrupção da gestação, várias pessoas se dirigiram à porta do hospital, após terem acesso ilegal aos dados da criança e o endereço do estabelecimento de saúde para tentar evitar que o procedimento, garantido pela lei, fosse realizado.

O mesmo empenho não foi visto em protestos pedindo que a polícia encontrasse seu agressor, que dias depois foi preso na Região Metropolitana de Belo Horizonte, em Minas Gerais. Nas redes sociais, onde o ódio é cada vez mais latente, não faltou quem duvidasse de que a garota era a vítima, insinuando que uma criança de 10 anos estaria consentindo os abusos.

Religiosos se apressaram em condenar equipe médica, a vítima e sua família, mas não dedicaram uma palavra para condenar a cultura de estupro vigente. Onde um menino de 13 anos é visto como uma criança, mas uma menina da mesma idade é vista como mulher. Tudo isso está fortemente calcado na cultura machista da nossa sociedade.

O tema aborto está longe de ser pacificado e mesmo nos poucos casos em que é permitido pela lei brasileira – gravidez resultado de estupro, risco de vida para a gestante ou gestação de fetos anencéfalos, ou seja, sem cérebro – é grande a sua resistência.

Como feminista, sou totalmente favorável à descriminalização do aborto por entender que esse é um problema de saúde pública. No Brasil, segundo a PNA (Pesquisa Nacional do Aborto) realizada em 2016 pelos pesquisadores Debora Diniz e Marcelo Medeiros, da UnB (Universidade de Brasília) e Alberto Madeiro, da Uespi (Universidade Estadual do Piauí), uma em cada cinco mulheres até os 40 anos já teria realizado pelo menos um aborto. Isso quer dizer que, muito provavelmente, todos nós conheçamos ao menos uma mulher que já passou por isso. A gente só não sabe.

Esses dados são referentes àquelas mulheres que passaram pelo procedimento e ficaram vivas. Infelizmente, por ser clandestino e caro quando realizado em condições de segurança, são muitas as mulheres – maioria pobres e negras – que morrem durante tentativas de interrupção da gravidez. O Ministério da Saúde estimou, em 2018, que a cada dois dias, uma mulher morria em decorrência do procedimento.

Manter o aborto criminalizado, como é no nosso País, não tem resultado em menos casos, mas sim, em inúmeras mortes de mulheres com menos recursos financeiros. As que têm condições recorrem às inúmeras clínicas existentes e seguem as suas vidas.

Em países onde o aborto foi descriminalizado, como o Uruguai, a legislação impôs investimentos em educação sexual para que as meninas se protejam de abusadores; em métodos contraceptivos de fácil acesso, para que as mulheres evitem gravidezes indesejadas; e no procedimento gratuito e seguro, zerando o número de mortes maternas nessas circunstâncias.

Manter o aborto ilegal e criminalizado, mais do que proteger vidas (os orfanatos estão cheios de crianças à espera de um lar), serve para controlar os corpos e as vidas de mulheres, que têm seu poder de escolha sobre a vivência da maternidade negado.

 



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