Um outro olhar

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Miriam Gimenes

A jornalista e escritora Daiana Garbin acaba de lançar livro em que mostra como é possível lidar com sentimentos que, geralmente, tentamos esconder
 
 
Apontar o dedo para os defeitos alheios é fácil. Agora, fazer uma reflexão, conversar consigo mesmo (a) e tentar melhorar o que pode ter de mais sombrio em sua personalidade é um ato de coragem. E foi justamente desta firmeza de espírito que a jornalista e escritora Daiana Garbin se valeu para escrever o livro A Vida Perfeita Não Existe (Sextante, R$ 39,90), que acaba de ser lançado. Ao longo de 160 páginas, a autora dispõe sobre a busca pela felicidade idealizada, a plenitude inatingível e sugere mergulho nas vulnerabilidades e frustrações, comuns a qualquer ser humano. 
 
“O livro é uma conversa muito franca com a leitora (coloco no feminino porque a maioria do meu público é de mulher) sobre alguns sentimentos e dores que a gente não gosta de falar, porque tem vergonha, medo e não quer admitir. Falo sobre culpa, inveja, raiva, ressentimento, autopunição, apego ao sofrimento e o livro vai mostrando com depoimentos meus e, principalmente, das minhas leitoras, que me acompanham desde o início do canal (EuVejo), como sofremos com todas essas dores”, explica. 
 
Vale aqui voltar um pouco no tempo e lembrar que, em 2016, Daiana deixou uma carreira consolidada como repórter da Rede Globo, onde ficou por 8 anos, para se dedicar ao seu canal no YouTube Eu Vejo, hoje com 130 mil inscritos, em que discute questões relacionadas a saúde mental, transtornos alimentares – problema com o qual ela lidou grande parte da vida – e meditação. “O meu trabalho começou com a questão dos transtornos alimentares, mas comecei a perceber que os relatos de sofrimento e dores das pessoas falavam muito mais de outras dores do que só da forma do corpo e da comida. É uma sensação de inadequação, insuficiência, de vergonha de ser quem é. Comecei a estudar esses temas, pois tinha muitas coisas para conversar.” 
 
   
O livro é um convite para o leitor identificar suas frustrações, medos, sua humanidade, e saber lidar com tudo isso. Abre os olhos para interpretar o que está por trás da ‘vida ideal das redes sociais’, todos sorrindo, em festas, sempre viajando. “Não existe vida perfeita, felicidade plena. A nossa trajetória  sempre vai ter dor e alegria, prazer e sofrimento, tristeza, raiva, ódio, momentos de compaixão, empatia. A nossa vida é uma mistura de sentimentos, não é uma linha reta. A gente acha que sabe disso, mas não sabe e continua idealizando e buscando uma vida perfeita. Fica pensando ‘os outros têm uma vida assim’, mas não tem que comparar”, analisa Daiana. Também, acrescenta, não tem de esperar um evento para achar que chegará a felicidade, seja quando comprar uma casa, fazer a viagem dos sonhos ou conquistar um amor.
 
A maior parte do ano é composta por dias neutros, em que seguimos uma rotina, sem altos e baixos, sem felicidades extremas ou tristezas profundas. “A gente faz o que tem de fazer e, de vez em quando, tem um dia superlegal, mas, de repente, tem um momento muito triste, vontade de chorar. É preciso conseguir ver felicidade também nesta vida neutra.” Deve-se, portanto, valorizar as pequenas coisas, que geralmente deixamos de notar enquanto se busca a plenitude. 
 
A jornalista está colocando esse aprendizado em prática. Grávida de oito meses de sua primeira filha, Lua, fruto do relacionamento com o também apresentador Tiago Leifert, ela tem aproveitado este período de quarentena para curtir a gestação. “Neste momento minha felicidade é arrumar roupinha, quando vou no ultrassom, agora que estou lançando meu livro, se alguém me manda mensagem dizendo que comprou o livro... São coisas que enchem nosso coração de alegria e não tem nada a ver com grandes acontecimentos. Portanto, coisas corriqueiras que podem nos deixar felizes.”
 
NOS PLANOS
 
Daiana, que já havia publicado, em 2017, o livro Fazendo as Pazes com o Corpo, também pela Sextante, diz que tem em seus planos a ideia de produzir mais publicações, já que tem tido bastante retorno de leitores. “Percebo que, de alguma forma, meu livro ajudou as pessoas a perceberem que estavam doentes, procuraram ajuda médica e sinto muito orgulho de tudo que construí e o que está por vir. Hoje me sinto curada do transtorno alimentar. Os médicos falam de remissão, quando não tem mais a doença de fato, mas sempre vai ser um ponto de atenção nesta questão ao longo da vida. Me considero em remissão, mas não significa que não tenha dias difíceis. Isso também faz parte da nossa vida”, avalia. Afinal, completa, o caminho para uma trajetória mais confortável é aquele em que você cria intimidade com suas dores. Basta saber moldar o olhar.
 
 



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