Conversa com o travesseiro

Envie para um(a) amigo(a) Imprimir Comentar A- A A+

Compartilhe:

Miriam Gimenes

Isolamento físico tem feito as pessoas sonharem mais; especialista diz que isso traduz a situação que a humanidade passa

As noites nos últimos meses têm sido iguais: sonhos estranhos, quase o tempo todo, com situações que não condizem com a realidade provocada pelo isolamento físico. Esta é a realidade noturna da dona de casa Luciane Pereira, 48 anos, de Santo André. “Eu não costumava sonhar muito antes da pandemia, mas tenho até comentado com meu marido que tenho sonhado muito. Não são ruins, são bons, sonho muito que estou confraternizando. Esta noite eu até deixei um caderno para escrever que eu estava dando um almoço e estava a família inteira, um monte de amigos, daí pedi para abrir o salão da minha casa. Sempre estou com outras pessoas conversando. Talvez isso seja falta, realmente, de estar com as pessoas.”

Luciene está em quarentena desde o dia 12 de março, principalmente por estar no grupo de risco: é cardíaca e hipertensa. “Não tenho convivência com quase ninguém a não ser com as pessoas da minha casa, meu marido e meus filhos. Talvez isso  seja um escape. Até pessoas que nem tenho muito contato estão todas nos meus sonhos, é engraçado.”

Ela não é a única a passar por isso. Inúmeras pessoas têm relatado, inclusive nas redes sociais, esse movimento constante das noites de sono. O astrólogo Daniel Atalla, que, além de participar de programas de televisão ,também fala sobre o assunto em seu canal no YouTube (Escola Esotérica), diz que faz todo sentido este tipo de relato como o da dona de casa. “Na verdade, estamos em um período de grande sensibilidade, principalmente pelo fato de as pessoas estarem reclusas. O fato de a gente estar fechado, em isolamento, faz com que nossa mente queira sair, ter liberdade”, analisa.

O  especialista explica que a mente é dividida em consciente, subconsciente (levemente consciente) e inconsciente (sem consciência alguma). “O subconsciente reflete a vontade que temos e ele acaba fazendo com que a gente sonhe mais. Se o nosso consciente sabe que temos de estar distante das pessoas,  o subconsciente quer ter mais contato. Por isso é muito comum as pessoas falarem que estão tendo sonhos repetitivos. Na verdade, na cabeça da pessoa ela precisa fazer coisas que ela tenha prazer, o que, no momento, seria interagir mais”, explica. 

Até mesmo as pessoas que não costumavam sonhar, como é o caso da Luciene, as que são mais fechadas e não lembravam muito o que sonhavam, começam a fazê-lo logo quando acordam. “O sonho é uma forma de sair do que está acontecendo, sair da realidade”, ressalta. 

E, segundo Atalla, existem três maneiras de compreender o período de ‘desligamento’ no sono. Tem aquele que é um descarrego do dia a dia, que em algumas situações lembra o que aconteceu no período anterior. Há também o tipo premunitório. “Para quem acredita em energias vai falar que é uma captação do futuro. Os que não acreditam vão falar que, na verdade, é a lógica.”

E, por fim, há o sonho que é um tipo de viagem astral, aquele que ela sente a sensação de liberdade. “Hoje estamos percebendo muito este que promove a viagem astral, a saída do perispírito. Para quem não acredita na parte espiritual, acha que é imaginação fértil, a busca de um novo lugar. Ele descarrega o inconsciente, uma saudade. Tem muita gente sonhando com quem já partiu,  sonhos confusos ou com pessoas próximas. Na verdade, ela está com vontade de estar com essa pessoa”, diz Atalla. Luciene lembra que, durante os sonhos, ela esteve com sua avó, que já está em outro plano. “Mas não foi um sonho ruim, nós apenas conversávamos.”

Para que não fique sobrecarregada de informações, e inclusive tenha a sensação de acordar cansada, a pessoa deve seguir um conselho simples dado pelo astrólogo: deixar um caderninho ao lado da cama. “A ideia é fazer um diário da quarentena. Ela pode colocar ali as sensações antes de dormir ou as tarefas que ela tem no dia seguinte. Isso vai diminuir esse processo de sonhos, ela vai se sentir um pouco menos sobrecarregada”, sugere o astrólogo. 

Mas ele acrescenta que é importante que a pessoa não tenha medo de ‘estar ligada’ ao dormir. “Todo sonho, por mais que ele seja tido como um pesadelo, é importante que a pessoa olhe pelo lado de um aviso. Às vezes ele só fala que ela precisa mudar a direção ou  simplesmente sirva para acalmar suas emoções.”

 

ESTUDO

Pesquisadores de três universidades federais – de Minas Gerais (UFMG), Rio Grande do Sul (UFRGS), de São Paulo (USP) –, com a colaboração de outras três instituições  (UFRN, UFRJ e UFC), estão realizando o estudo Sonhos em Tempo de Pandemia. Pelo perfil do Instagram @sonhosconfinados eles estão colhendo informações por meio de questionário. Entre as perguntas está sobre a lembrança dos sonhos, se eles mudaram durante o isolamento, entre outras coisas. Se você se encaixa no perfil, não custa participar.

 



Diário do Grande ABC. Copyright © 1991- 2020. Todos os direitos reservados