A Rainha dos Palcos

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Miriam Gimenes

Fotobiografia de Bibi Ferreira remonta 77 anos de sua carreira no lugar onde entrava ‘em comunhão com Deus’
 
Para uma diva, o espetáculo nunca acaba quando a cortina fecha. Bibi Ferreira (1922-2019) partiu, mas sua voz e interpretação ainda vivem pelos palcos do Brasil e do mundo. Ela era única. E quase tudo o que produziu durante os 77 anos de carreira pode ser visto na nova edição da fotobiografia Bibi Ferreira, uma Vida no Palco, que inclui o período compreendido entre 2001 e 2019, ano de sua morte, aos 96 anos. A publicação teve lançamento no último dia 1º, data de seu aniversário, ganhou apenas 800 exemplares, vendidos a R$ 150, mas também pode ser vista de forma gratuita no endereço  raman.pt/fotobiografia. Outros 600 exemplares serão distribuídos, de forma gratuita, para as bibliotecas públicas de várias cidades do País.
 
 
A organização do trabalho é da Raman Entretenimentos, do empresário cultural Nilson Raman, que pelo nos últimos 28 anos de vida da cantora e atriz a acompanhou e encorajou a embarcar nos mais grandiosos projetos, como, por exemplo, cantar Edith Piaf em Paris, Carlos Gardel em Buenos Aires e Frank Sinatra em Nova York. “Quando apresentei o primeiro projeto a ela, de fazer Piaf, me disse: ‘Você só pode estar brincando comigo’ (risos). E eu não estava brincando, tanto que foi um sucesso e  Bibi conquistou o mundo”, lembra Raman, saudoso. 
 
Ninguém melhor que ele sabia da capacidade da diva, nos bastidores um tanto reservada. “Ela era uma mulher tímida. Até relaxar nos lugares, ficar tranquila nas viagens, demorava. Primeiro tinha de chegar e se ambientar. Sempre a levava para o camarim, para ela ir acalmando.” Para ela aceitar usar cadeira de rodas, acrescenta, demorou. “Um dia estávamos chegando no Aeroporto Santos Dumont (Rio de Janeiro) e ela saindo de cadeira de rodas. Encontrou o Faustão, que era um grande amigo, e ele ficou assustado pelo fato dela estar na cadeira. Ela ficou desesperada, era muito vaidosa. Ficou no palco até mais de 90 anos por ser vaidosa.” E o que o empolgava, ressalta, era criar desafios para ela, quase todos aceitos.
 
 
Um dos únicos que ela recusou foi o último, de cantar as músicas de Dorival Caymmi, de quem ela era fã. “No último ano de vida ela ficou bastante internada. Buscava levar os músicos lá para ensaiar, mesmo sabendo que o espetáculo poderia não acontecer. Até que ela me chamou de canto e disse que não poderia mais cantar. Ali me deu a permissão de escrever um texto anunciando a sua aposentadoria, aos 96 anos.”
 
“Nunca pensei em parar, essa palavra nunca fez parte do meu vocabulário, mas entender a vida é ser inteligente. Fui muito feliz com minha carreira. Me orgulho muito de tudo que fiz. Obrigada a todos que de alguma forma estiveram comigo, a todos que me assistiram, a todos que me acompanharam por anos e anos. Muito obrigada”, justificou Bibi em comunicado. Deixava os palcos onde, segundo Raman, ela dizia estar em ‘comunhão com Deus’. Cinco meses depois ela partiu.
 
Raman preparou o livro em parceria com Maria Alice Silvério, produtora e pesquisadora, trabalha na área cultural desde 1965. “Pesquisar a carreira de Bibi Ferreira foi uma das tarefas mais árduas e gratificantes da minha vida profissional. Quando Nilson Raman me chamou para participar da fotobiografia de Bibi, ela completava 60 anos nos palcos. O volume de informações era enorme: inúmeros espetáculos, todos os prêmios e troféus mais importantes, uma legião de fãs espalhados por todos os cantos do País, assim como em Portugal e na França, críticas nos mais significativos periódicos, nacionais e estrangeiros. As entrevistas com a artista a quem eu idolatrava, a diva, a musa, foi a parte mais emocionante do projeto.”
 
E acrescentou: “Fizemos a primeira edição do livro, mostrando a trajetória de ascensão vertiginosa de Bibi até 2003. Naquele momento, eu acreditava que ela, como artista, tivesse chegado ao cume. Mas não. Os 17 anos subsequentes, os quais pude acompanhar passo a passo, abarcaram novas conquistas, prestígio ainda maior, novos fãs, públicos maiores. Ao terminar a segunda edição, com o saldo de 85 espetáculos como intérprete, 62 como diretora, mais de 100 prêmios e homenagens, três grandes shows em Nova York e aplausos calorosos sempre, sempre, veio a constatação da relevância da pesquisa e do registro da vida da artista completa, cujos talento e versatilidade são únicos na nossa história.”
 

LINHA DO TEMPO
 
E imagine quantas fotos tiveram como opções para traçar essa história? Bibi ajudou a escolher todas.  E sua carreira é dividida em temas: – Tudo começou no circo; Procópio, pai e mestre; A estreia com 18 anos; Escândalos, Amores, Interpretações inesquecíveis, Prêmio no Japão e, Transmissão ao vivo do Oscar em 1972, além da lista de suas direções em peças, shows, óperas e discos. No capítulo final, uma Galeria de Personagens, com fotos especialmente escolhidas pela atriz, com os papéis mais marcantes na sua vida. O miolo abriga textos biográficos, outros em primeira pessoa, reprodução de reportagens e recortes de críticas de jornais e revistas de várias épocas, com destaque para a reportagem de página inteira publicada pelo The New York Times, em 2016. 
 
Traz também depoimentos de Catulo da Paixão Cearense, Austregésilo de Athayde, Paschoal Carlos Magno e Sábado Magaldi, entre outros ilustres. Tem espaço, ainda para passagens sobre seus casamentos, a filha, os netos, sua fiel escudeira, a camareira Neide, que cuidava da Bibi em casa desde 1982, e a produtora executiva Cleusa Amaral, entre outras pessoas importantes no seu dia a dia.
 
A ideia, ressalta Raman, além de fazer um documento de uma das maiores artistas brasileiras de todos os tempos – que estreou no palco com dias de vida, em uma peça de seu pai, Procópio Ferreira – foi de mostrar toda sua força, como se tornou um expoente, arrastou multidões aos teatros, conquistou Paris, Nova York, Portugal e Buenos Aires e, ao mesmo tempo, era extremamente humana, humilde, preocupada com o próximo e em exercer o seu ofício da melhor maneira possível, até o fim.
 



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