Maluca Beleza

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Miriam Gimenes

Deborah Secco, que diverte o público na pele de Alexia, em ‘Salve-se Quem Puder’, fala de carreira, família e os preços que teve de pagar por 'ser verdadeira'

Alexia sonha em ser atriz de sucesso. Mas, quando consegue o papel de protagonista de uma novela, presencia um crime e sua vida vira do avesso. Precisa se esconder, trocar de nome, se acostumar com outra história. Mas de um jeito divertido, característica de sua personalidade. “Alexia é doida, engraçada, dramática, e tem duas compulsões: comida e homens”, define Deborah Secco, que acaba de estrear esta personagem na novela das 19h da Rede Globo, Salve-se Quem Puder. 

Dona de personagens cômicas como Darlene (Celebridades) e  Natalie Lamour (Insensato Coração), Deborah diz que misturou um pouco das duas para compor esta nova personagem. “Acaba que a gente se repete um pouco porque a gente não é Deus e tá longe de ser a Fernanda Montenegro”, brinca. O fato é que, aos 40 anos, Deborah, que estreou em novelas aos 11 anos, em Mico Preto (1990), encarou inúmeros papéis de sucesso – no cinema o destaque foi Bruna Surfistinha (2011)  –, e cada vez que aparece na tela é, para de fato, surpreender. Na entrevista abaixo ela fala de carreira, como se divide entre família e profissão, o sonho de aumentar a família e as dores e delícias de sempre dizer a verdade. 

 

Como é a sua personagem?

Ela assume um segundo nome, mas acaba sendo a maluca de sempre. Alexia é doida, engraçada, dramática, e tem duas compulsões: comida e homens. Isso torna ela talvez muito próxima de nós, mulheres, porque a gente está sempre com essa coisa com a balança e às vezes estragamos as nossas vidas com uns boys mais ou menos. Ela ama atuação, esse universo de filmes, teatros, ela cita e reproduz muitos filmes, tem bordões ótimos como ‘minha nossa senhora da musculação’, ‘minha nossa senhora da banda larga’, ‘minha nossa senhora da lerdeza’, são vários, adoro quando ela fala ‘meu amor, eu sou Alexia, eu sou o máximo’, porque o nome dela é Alexia Máximo. Eu estava muito tempo sem fazer uma novela de comédia, estava louca para poder voltar, brincar, e desde que minha filha nasceu, as coisas mudaram um pouco. Minha realização era toda no meu trabalho, hoje tá muito em casa, acabou que agora aqui está com um peso menor. Essa novela está sendo leve para mim, eu tenho vindo para gargalhar, me divertir, e está sendo uma delícia.

 

Se inspirou em alguém para compor a personagem?

Na Claudia Raia, nessa coisa do musical.

Conseguiu trocar figurinhas com ela?

Não tive tempo, foi tudo muito corrido e ela estava em Verão 90. E quando terminou, a gente já estava gravando. Mas eu assisti tudo da Claudia, tem um personagem dela que eu sou muito apaixonada que é da Rainha da Sucata. Ela fazia aquela bailarina desengonçada com o Antonio Fagundes. Estou tentando muito chegar naquele lugar. Sei que falta muito ainda, porque a Claudia é diva, mas aquele personagem marcou a minha história de vida. Aquela novela inteira. Tento ir por aquele caminho.

 

Você teve que mudar o cabelo.

Olha, gostar não é mais uma possibilidade…  (risos). Confesso que prefiro cabelo curto, principalmente no verão. Depois de muito tempo de cabelo curto, tá sendo difícil. A cor eu adoro, mas o cabelão tá sendo difícil. Botei megahair.

 

 E os cuidados?

 A gente não consegue ter muito cuidado por causa da rotina de gravação. Eu, Juliana e Vitória estamos gravando seis dias por semana, 11 horas por dia, decorando mais umas cinco horas em casa. Então nossa rotina está bem puxada.

 

Como definiria esta novela ?

É uma novela leve, acho que diferente do que a gente tem no ar hoje. Vem para alegrar a gente, gargalhar sem pensar em mais nada. Acho que esse é momento que a gente precisa muito rir.

A sua personagem lembra algo que você já fez antes, né?

Ela mistura um pouco da Darlene (Celebridade), um pouco do Louco por Elas, da Natalie (Insensato Coração), que são as personagens de comédia que eu já fiz. Acaba que a gente se repete um pouco porque a gente não é Deus e tá longe de ser a Fernanda Montenegro. Tento sempre me diferenciar, porque são muitos papéis. Mas eu citaria essas três comédias que eu fiz.

 

A sua personagem deixa a vida para trás e começa tudo de novo. Como você se imaginaria nessa situação?

Eu não consigo me imaginar deixando a minha filha para trás. Podendo levar a minha filha, acho que ia ser massa.

 

E deixar a carreira de atriz?

Ia ser massa. Acho que eu ia viver acampando. Mas acho que a novela mostra uma proposta de pensamento muito interessante: será que o que você sempre sonhou é de fato o que vai te fazer feliz? Alexia está em busca do que sempre sonhou, de repente acontece um negócio e ela vai para um caminho completamente diferente. E de repente ela vai ser muito mais feliz. Eu adoraria ter essas possibilidades de tentar fazer diferente. Eu penso em tentar morar fora, numa cabana, viver acampando um tempo. No meio do nada, sei lá.

 

Qual é o segredo de ter uma carreira tão consolidada?

Não sei se tem segredo, acho que é o resultado de muitos anos de trabalho. Eu amo muito o que faço, então sou extremamente entregue aos meus personagens, trabalhos. Também sou muito profissional, correta, e acho que também tive muita sorte.

  

E o segredo desse corpo aos 40 anos?

 Eu tenho uma genética muito abençoada e algumas personagens que fizeram muito sucesso eram mulheres sexies, gostosas, então o povo confunde um pouco isso. Eu mesma não tenho esse apelo todo, mas tudo bem, estou aceitando os elogios.

 

Tem malhado?

 Fiquei cinco anos sem malhar, desde que minha filha (Maria Flor) nasceu, agora estou tentando voltar. Mas estamos gravando muito, duas vezes por semana é o que está dando. Além da novela, eu tenho filha, marido. Eu não faço nada, genética é o que conta mais.

 

Pensa em ter mais filhos?

Penso, nesse momento é quando a gente não pensa, porque estou trabalhando muito, mas penso. Mas tem um impasse: quero muito ter um segundo filho e o Hugo quer muito adotar. Estamos num impasse.

Em 32 anos de carreira, o que falta artisticamente?

Não tenho muitas ambições diferentes de atuar. Escrevo as minhas coisas, talvez escreva uma peça, estou pensando nisso, mas amo atuar. Meu barato é dar a vida às mulheres diferentes de mim. Poder me transformar nessas mulheres, conhecer mulheres diferentes de mim. Quero fazer isso até ficar velhinha igual à dona Fernanda Montenegro.

 

Tem alguma personagem que você sonha?

Difícil, eu fiz todos os personagens que eu sonhava. Mas agora eu fico assim, ‘faço uma comédia, agora quero fazer um drama’, quando estou na mocinha, quero fazer uma vilã, quando faço uma vilã, quero depois uma mocinha. Claro que ainda devem ter personagens que vou fazer e que vão ser inesquecíveis, mas ainda não as conheço. Fico sempre buscando personagens que me motivem, que me excitem.

 

O que você está escrevendo?

Uma peça sobre a minha vida, mas não sei nunca se vou fazer.

 

Qual foi o maior ensinamento que guardou para você desse universo?

Uma frase que eu aprendi quando fiz Bruna Surfistinha. Uma garota de programa falou para mim: ‘Débora, a gente não é como a gente quer ser, a gente é como a gente consegue ser’. Essa foi uma grande lição. A gente tem muito julgamento alheio. ‘A fulana tá gorda, tá magra, tá bonita, tá com homem bom, tá com homem ruim’. Tá todo mundo tentando ser o melhor que pode. Todo mundo dando o seu melhor, e nem sempre o nosso melhor é o que a gente quer. Acho que a gente tem que ter mais compaixão com o melhor das pessoas. E aceitar que temos defeitos, tivemos uma cabeça diferente da que temos hoje, que já fizemos coisas que não faríamos hoje, que graças a Deus a gente aprende, evolui. Tá todo mundo fazendo o seu melhor.

 

Você se arrepende de algo?

De nada, porque tudo que fiz, fez com que eu me tornasse a mulher que eu sou hoje. Hoje, faria diferente diversas coisas na minha vida, porque, graças a Deus amadureci, aprendi com as lições que a vida me deu, mas não me arrependo de nada, porque senão eu não chegaria no lugar que eu estou hoje. Ele é maravilhoso e não abro mão dele.

 

Do que você se orgulha?

Me orgulho muito de ter construído uma história profissional em cima de muito trabalho, dedicação, profissionalismo, muita entrega. De ter construído a minha família da forma como ela é, eu acho que tenho um relacionamento que nem nos meus melhores sonhos eu poderia ter. Tenho um parceiro, um companheiro, um cara que me admira como eu sou, com meus erros e acertos, qualidades e defeitos. O meu maior acerto é a minha filha, que veio pronta, veio me dando aula. Outro dia eu falei ‘filha, você é a mais linda’. Ela, ‘não, mamãe, todas são lindas iguais’. ‘É isso, filha, você está certa’. Acho que me orgulho de muita coisa, minha vida é muito boa, sou muito grata, privilegiada. Numa época da minha vida, achei que pudesse me ferrar numa parte. Mas graças a Deus na hora certa tudo se encaixou e veio a pessoa certa e eu consegui ter a família que eu sempre esperei.

 

Você começou muito pequena na TV e conquistou o público. Você acha que as pessoas te respeitam muito por você ser acessível e de verdade?

 Acho que tem vários motivos. Pago um preço alto por ser de verdade, mas essa sou eu. Às vezes as pessoas brigam comigo, dizem que tenho que falar menos, mas essa sou eu. Amo ser assim, transparente, e não sou perfeita mesmo. E não tenho vergonha disso, sou humana, erro pra caramba, mas também aprendo, ouço os outros, estou aqui para trocar. Mas também acredito que tem gente que não é assim, que também o público gosta. O público tem uma relação comigo porque estamos aí há muito tempo, todo mundo meio que me viu crescer. Tem um carinho de acompanhar uma vida. Acho que esse é o motivo desse carinho todo, e também a parte do sincericídio.

 

Como é a sua relação com o trabalho?

Amo trabalhar, amo vir para o Projac. Fico nervosa como se fosse a minha primeira novela. Amo atuar e falo que se eu não atuasse, seria esquizofrênica. A minha vida é ficar falando sozinha. Quando não estou gravando, fico falando textos de novelas que eu já fiz. Sou bem louca. Atuar é o que me acalma. Hugo diz que eu sou uma pessoa melhor trabalhando

O artista costuma ter muita vaidade. Como você consegue se distanciar disso?

Acho que cada vez mais a gente está tentando acabar com essa coisa competitiva, fazer uma coisa mais empática, onde todo mundo torce por todo mundo, enxerga no outro as dificuldades e os merecimentos. Faço parte dessa corrente. Sou uma pessoa que torço pelas pessoas como torço por mim. E acredito que quanto mais for assim, mais o mundo cresce. Torcer contra alguém só te faz mal, e eu quero me fazer muito bem. Mas fico feliz com essa corrente empática que ultimamente, nós artistas, estamos pregando, outras pessoas também. A gente aceitar as pessoas como elas são, torcer pelas pessoas. Não ter competição entre as mulheres. A vida é tão difícil, melhor a gente se unir, se amar, se jogar junto.

 

Como é para criar uma menina nesse universo que continua sendo muito machista?

 Tenho que virar feminista ativa. A gente tem que salvar o mundo por essa criança. É claro que vou errar muito, mas estou aí com toda a humildade do mundo para conversar com pessoas que sabem mais do que eu sobre o assunto. Cada vez ser melhor e criar um mundo melhor para a minha filha.

 

Como está sendo a rotina com a Maria Flor?

Uma loucura, mas acho muito importante para ela ter a referência de uma mulher que trabalha, independente, que vai atrás das suas coisas. É aquilo, ‘faça o que eu faço’, então não adianta muito o ‘faça o que a gente diz’. Busco ser um exemplo para ela, de uma pessoa que nunca dependeu de ninguém.

 

Você gosta de fazer novela mesmo. Sempre defendeu.

 Amo. Acho novela um grande desafio. Você tem que se vencer, vencer a falta de tempo, vencer a falta de possibilidades, de preparação, condições, a gente faz um milagre. A gente grava 20, 30 cenas por dia, coisa que não se faz em nenhum lugar no mundo. Então isso para mim é muito desafiador. Mas também gosto muito de fazer filme, fui muito feliz fazendo Bruna Surfistinha, Boa Sorte, sou muito feliz fazendo teatro também. Acho que atuar é isso, estar disponível para qualquer veículo.

 

E durante as gravações da novela (o período em Cancun, por exemplo), como fica o seu ‘coração de mãe’ ao ficar tanto tempo fora de casa, embora a Maria já entenda que tem uma mãe artista?

Sinto muito mais saudade dela do que ela sente minha. Ela mantém a rotina dela em casa, com a escola, atividades, amigos, o pai... Eu estando sozinha acabo sofrendo mais. Mas faz parte. Acho que a melhor coisa que posso deixar para ela é meu exemplo de mãe que trabalha, mulher independente, que construiu uma história sozinha. E isso é muito importante para mim. 

 

Por fim, você ainda tem algum sonho que pretende realizar ou já se sente completa por ser uma profissional reconhecida e ter uma família formada e com saúde? 

Eu me sinto bastante realizada, agradeço a Deus todos os dias.

 

 




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