Amor além dos quadrinhos

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Karine Manchini

Viver em um mundo formado de fantasia para muitos é algo impossível, o que não passa de um engano. Prova disso é o universo cosplay – termo inglês que significa fantasia, interpretação e dá nome a quem curte se vestir de um personagem – que, além de encantar crianças e adolescentes, também chama atenção dos mais velhos. A prática surgiu na década de 1930 em Nova York durante convenção científica, na qual dois jovens apareceram vestidos com roupas espaciais. Ao contrário do que muitos pensam, a técnica só chegou ao Japão em 1984, quando Nobuyuki Takahashi compareceu ao evento e achou interessantes as fantasias. Ele apresentou a prática para os japoneses e deu a ela o nome de cosplay.
 
O fato é que o hábito é visto muitas vezes com olhar ‘torto’ pelos mais céticos em relação ao hobby. Mas, por outro lado, é considerada uma diversão para quem é fã de desenhos, filmes, animes e quadrinhos. É o caso da psicóloga Bárbara Rienda Sanches, 33 anos, de Santo André. Apaixonada pelo estilo desde 2012, ela fez seu primeiro cosplay da personagem Misa Amane, do mangá japonês Death Note e desde então não parou mais. Como psicóloga, Bárbara acha significativa essa forma de distração. “Sempre gostei do mundo nerd, meus amigos também foram de grande influência. Encontrei uma maneira de me divertir e uma fuga saudável da realidade do nosso dia a dia. Posso ser outra pessoa, ter outra personalidade e outro nome. Acho importante quebrar paradigmas, principalmente por causa da minha profissão, mostrar para pessoas que não há motivos para preconceito”, explica.
 
Bárbara marca presença em eventos relacionados ao mundo dos cosplayers sempre que pode. Já participou do Anime Dreams, Anime Friends e Up! ABC. Este último acontece duas vezes por ano desde 2005 no Grande ABC, já reuniu cerca de 14 mil visitantes e é considerado um dos maiores festivais de cosplay, games e cultura Geek do Brasil. O evento será realizado até o fim deste ano, mas ainda não tem previsão de data.
 
Em uma dessas participações, que a marcou de forma divertida, encontrou uma de suas pacientes, que não sabia que a psicóloga fazia cosplay. “Ela estava com as amigas, quando me viu, falou: ‘Gente essa é minha psicóloga!’. Todas reagiram com surpresa e acharam legal, foi uma lembrança muito engraçada”, conta.
 
O que muitos não sabem é que a produção para um cosplay não é barata. Os valores das fantasias, que variam conforme o personagem, material e qualidade da roupa. Por isso, uma situação recorrende nesse universo é a venda do personagem, que se usado muitas vezes pode ficar cansativo e repetitivo para os eventos.“Dependendo do material usado pelos cosmakers (pessoas que fazem roupas e acessórios) pode ficar de R$ 1.000 a R$ 5.000. Quanto mais luxuoso e elaborado, mais caro fica. Vendi o cosplay da Saeko Busujima, do anime High School of the Dead, gastei R$ 500 para montar e vendi por R$ 200. A venda é feita por meio de grupos no Facebook. Agora estou planejando meu próximo, a Hera Venenosa da DC Comics ou Red Card Katarina do jogo on-line League of Legends”, diz Bárbara.
 
Já a auxiliar de contabilidade Alessandra Pezzolato de Melo, 30, de São Caetano, sempre gostou de animes, desenhos e jogos. É cosplay desde 2009 e confessa que, no início, quando investiu na ideia, sentiu um pouco de vergonha, mas depois se acostumou. Se apaixonou pelo universo quando foi em um evento de cultura japonesa em 2008. “Achei lindo o pessoal produzido. Meu namorado jogava League of Legends há algum tempo, quando comecei a pesquisar sobre as personagens, me apaixonei pela Sona logo de cara. Aprendi mais sobre ela e assim surgiu o cosplay”, conta. Fez diversos personagens, entre eles a Princesa Jujuba do desenho Hora de Aventura.
 
Alessandra guarda para sempre na memória uma situação muito marcante: durante sua trajetória como cosplay, no Anime Friends 2014, conseguiu conhecer pessoalmente as dubladoras das personagens Elsa e Anna do filme Frozen – Uma Aventura Congelante da Disney.
 
REALIZAÇÃO DE UM SONHO
 
Além de se divertir interpretando seus personagens favoritos, Andréia Pétta Batista, 26, maquiadora da Capital, gosta de produzir suas próprias roupas. Conhecida como Anie, Andréia é cosplay desde os 12 anos. Seu último personagem foi Luna Lovegood, de Harry Potter. Considerada parecida fisicamente com a atriz e por gostar da personagem, a jovem decidiu investir na montagem do cosplay de Luna.
 
Pelo grande sucesso que os livros e filmes da saga Harry Potter fazem, a maquiadora conta que já passou por diversas situações inusitadas enquanto estava interpretando seu cosplay. “As pessoas ficam felizes em poder tirar foto ou conversar com um personagem que elas gostam. Já tiveram alguns casos que choraram ao falar comigo, pois era algo lúdico. É como realizar um sonho ao me conhecerem.” Ela também teve seu momento tiete. “Foi quando conheci a atriz que interpretou Luna no cinema. Isso aconteceu ano passado na Comic Con. Só chorei, mal conseguia falar, foi muito emocionante! Ela é muito fofa, uma pessoa incrível que, com certeza, foi algo especial e inesquecível e só foi possível graças ao meu cosplay!”, relembra.
 

A família de Andréia acha estranho seu gosto peculiar por se vestir de um personagem, mas isso não é empecilho para que ela siga em frente com sua paixão. A moça inclusive já participou e continua frequentando diversos eventos, como a Comic Con, e é apresentadora nas edições dos festivais da Up! ABC, na região. “Não penso em parar, acho que não existe idade para se divertir e fazer o que gosta”, finaliza. 




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