Janelas da alma

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Miriam Gimenes

 Empoderamento é ação atribuída a quem trabalha para criar debates que visam conscientizar a sociedade sobre os seus direitos. Se levada ao pé da letra, portanto, ela se encaixaria perfeitamente como título da obra que começou a ser feita há pelo menos dez anos pela artista plástica Sheyla Silva, de Santo André.

É que, além de exercitar o talento que descobriu ainda criança – desenhava até nas paredes de sua casa, o que obrigava o pai a cobri-las continuamente –, Sheyla usa de suas pinturas, coloridas lindamente por aquarela, para dar voz àqueles que, segundo ela, ainda não são ouvidos pela sociedade. “A arte para mim é mensagem. Desde que comecei a me expressar como mulher negra dentro da sociedade, comecei a usar esse trabalho com esta finalidade. Às vezes, a imagem tem mais potência do que algumas palavras. E não falo só para negros, mas para todo mundo que se sensibiliza e quer somar comigo nesta luta.”

Entre suas pinturas estão mulheres que tiveram de se virar para ser arrimo da família (como exemplo, a imagem à esquerda), aquelas que se sentiram livres por poderem assumir os cabelos encaracolados, aquelas que foram violentadas e morreram por sua cor de pele ou opção sexual, entre outros perfis. E, em quase todos, Sheyla procura esconder os olhos dos personagens, para tocar quem os vê. “O fato de não ter os olhos é uma forma de ampliar a visão. Quero chamar a atenção para as nossas questões porque a sociedade ainda é cega. E os olhos, como dizem, são as janelas da alma”, analisa. Ela diz ter se inspirado no pintor italiano Amedeo Clemente Modigliani (1884-1920), marcados por forte expressão em sua arte, inclusive nas esculturas, inspiradas em máscaras africanas.

Atualmente, Sheyla dá aulas para crianças e para um grupo da terceira idade na Pinacoteca de São Bernardo. Do tempo que sobra, produz as pinturas que vende na página do Facebook Aquarelas Ayó, a partir de R$ 150. Tem, entre as personagens já citadas, série de orixás do Candomblé, que são belíssimas.

A artista já participou de algumas exposições coletivas na região, mas seu sonho é fazer uma mostra solo. “Quero ter meu trabalho reconhecido e uma exposição ajudará a levar, de alguma forma, a mensagem que eu pinto para as pessoas e, assim, melhore o pensamento coletivo.” Axé.




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