Para ver o Chico passar cantando coisas de amor

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Miriam Gimenes

Há exatos 44 anos o presidente chileno Salvador Allende estava prestes a sofrer golpe de Estado, o Brasil discutia o desaparecimento do garoto Carlinhos, Raul Seixas fazia divulgação do seu disco recém-lançadoKrig Ha-Bandalo e ninguém menos que Chico Buarque, junto com o MPB-4, subia ao palco do Primeiro de Maio, em Santo André, para se apresentar para um público de 3.000 pessoas.

E este show foi memorável, segundo o produtor Sergio Dante Ballarini, à época com 17 anos, até porque foi o primeiro de muitos que ele produziu. Ballarini e mais dois amigos – José Carlos Jacinto, o Carlão, e Rubens Lange – ficaram em dúvida se trariam ele ou Elis para Santo André, mas a opção por Chico, pelo visto, foi acertada. “O público estava um pouco alvoroçado, porque o show estrava atrasado em mais de uma hora. Quando ele entrou, se firmou em um banquinho (já havia bebido um pouco a mais) e começou a cantar ‘Todo dia ela faz tudo sempre igual, me sacode às seis horas da manhã...’ Fez um showzaço. Foi um marco”, lembra Ballarini.

Como o contratado exigia sinal do cachê antes do show, Lange, um dos produtores, pediu demissão na empresa que trabalhava, fez acordo e arcou com as despesas. “No fim quem pagou o restante (19 mil cruzeiros, segundo reportagem do Diário à época) foi um dos patrocinadores.” E ele continua gostando das músicas de Chico, embora tenha ressalvas. “(Gosto) Do compositor sim, do político não. Não dá para falar mal de alguém excepcional, mas artistas não têm de se meter com política.”

Só que Chico é político. Em agosto do ano passado, por exemplo, fez parte da comitiva da então presidente Dilma Rousseff (PT) durante a votação do impeachment dela no Senado. E também é romântico, atemporal, antenado, gênio. Prova disso é o álbum que ele lança hoje, Caravanas (Biscoito Fino, R$ 34,90, em média) – após hiato de seis anos –, também em versão digital.

O trabalho é composto por nove músicas, a primeira delas, Tua Cantiga, tem letra de Chico e melodia do pianista Cristóvão Bastos. O clipe foi o primeiro a ser divulgado e até ontem tinha quase 1 milhão de visualizações no YouTube.

Por conta dos versos em que diz que largaria a mulher e filhos pela amada, foi chamado de machista. Ao que foi publicado em seu Facebook: “Será que é machismo um homem largar a família para ficar com a amante? Pelo contrário. Machismo é ficar com a família e a amante. Diálogo entreouvido na fila de um supermercado...” A letra, diga-se, é belíssima.

Se a primeira é assim, imagine as outras oito. Seja na década de 1970 ou agora, sempre vale a pena parar para ver a caravana de Chico passar cantando coisas de amor..




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