Com José Hamilton Ribeiro não tem essa de `ouvi dizer`

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Marcela Munhoz

“Todo repórter é também um aventureiro (…). E o Vietnã era uma grande, fantástica aventura (…). Queria ver para crer”. O trecho faz parte do relato completo de José Hamilton Ribeiro no livro Vietnã, O Gosto da Guerra (de 1969) sobre sua experiência na Guerra do Vietnã, quando em março de 1968, pisou em uma mina e teve uma perna amputada. Seu relato e fotos fizeram da reportagem Eu estive na guerra, da revista Realidade, uma das mais emblemáticas e de Ribeiro um exemplo para muitos estudantes de Jornalismo.
 
Mas essa é apenas uma das centenas histórias (nem é a favorita dele) contadas e vividas – literalmente – pelo ‘Príncipe dos Repórteres’, um dos apelidos que ganhou nos mais de 60 anos de profissão. José Hamilton, aliás, adora falar sobre elas e relatou um pouco do que viveu para o então estudante Arnon Gomes, que organizou tudo na deliciosa biografia O Jornalista Mais Premiado do Brasil, de 2015 (Eko Gráfica, 260 págs). A dupla estará sábado, das 13h às 15h, na Livraria Psico Cultural (Rua Júlio Tomé, 159), em São Bernardo, para falar sobre ela e também de uma outra paixão de Ribeiro: a moda de viola (leia mais ao lado).
 
“Não foi nada fácil escrever sobre José Hamilton, ele tem muito para contar. Além disso, sempre foi minha maior referência. Mas, abri mão da timidez e ele imediatamente se colocou à disposição, revelando a pessoa simples e humilde que é. Nunca quis se destacar mais do que a matéria”, conta Arnon Gomes, hoje editor-chefe da Folha da Região, de Araçatuba. “Sonhava com isso (biografia), porém não tinha certeza de que poderia acontecer. Eu mesmo nunca tive coragem de escrever minhas memórias”, diz, por sua vez, o biografado.
 
José Hamilton começou na profissão em 1955, como redator da Rádio Bandeirantes e não apenas passou, mas participou da criação de vários veículos. Assinou matérias em alguns jornais, como Folha de São Paulo, fez história nas revistas Quadro Rodas, Realidade e Globo Rural; trabalhou nas TVs Tupi e Globo, onde atualmente faz grandes reportagens de “mais de 20 minutos cada” sobre assuntos que adora falar: a vida no Interior.
 
Também faturou dezenas de prêmios (vários Esso) e dá nome a um. “Ganhar um prêmio de jornalismo não quer dizer nada, mas mais de 25, 30, já é outra coisa...”, brinca o senhor, que vai completar 82 anos na terça-feira. “É que tive muita sorte: sempre trabalhei com jornalistas melhores do que eu.”
 
Sobre o que vê da profissão nos dias de hoje, o eterno repórter acredita que os colegas estão muito “declaratórios”. “Tentam costurar as informações, mas não é o suficiente”. Para ele, o jornalista consegue fazer matéria boa quando obtém conhecimento mínimo da pauta para poder tratá-la com veracidade, credibilidade e emoção. “Tem que procurar na alma, olhar no olho, observar.” Resumindo: sair da redação para contar histórias, algo que fez muitas vezes. Ele até trabalhou em uma fábrica para contar o que sentiam os operários.
 
José Hamilton enxerga a crise que o jornalismo está vivendo (“É a maior que já presenciei”) e sabe o quanto os repórteres estão atolados. “Não falta repórter bom. É que profundidade exige tempo e pesquisa, e a crise não está permitindo essas condições no momento. Porém, uma das principais características do jornalista é ser ‘furão’, então não pode ter medo de ultrapassar os obstáculos, a começar pelos dentro da sua própria empresa”. E emenda: “Dizem que o jornalismo é a melhor profissão para sair dela a tempo, mas quando é de vocação, de formação, ela nunca sai da gente.”
 
 
‘Ninguém teve a ideia de selecionar as grandes canções caipiras, então eu fiz’
 
Nas seis décadas de história no jornalismo, tem algo que José Hamilton Ribeiro se arrepende: não ter feito amizade com os cantores caipiras no seu primeiro emprego, na Rádio Bandeirantes. Ele se deparava com um ou outro nos corredores. “Na época, não me atentei. Para mim eles chegam à genialidade, são muito autênticos”. Mas 50 anos depois, correu atrás do ‘prejuízo’, fez amizade com muitos deles, como Mario Zan, Tinoco, Carreirinha, Pena Branca, Renato Teixeira, Sérgio Reis, Almir Sater, Rolando Boldrin, e lançou o Música Caipira – As 270 Maiores Modas (Relejo Livros, 438 págs.), que está em sua quarta reimpressão.
 
Nascido na cidade de Santa Rosa de Viterbo, no Interior de São Paulo, José gosta de moda de viola desde que se conhece por gente. “Sempre fez parte do meu subconsciente. Meu sonho era encontrar um livro que exaltasse as canções de grande criatividade artística e poética. Como ninguém teve a ideia, resolvi eu mesmo fazer.”
 
Segundo o jornalista, só foram descritas no livro realmente as melhores músicas, que passaram por júri criterioso. “Entraram apenas as que eu e mais dois convidados especialistas aprovamos”, conta, José Hamilton, que revela estar interessado em participar de mais um livro, dessa vez, sobre José Wilker. “Minha filha Ana Lúcia – ele também é pai de Teté – o entrevistou. Tem material muito bom”, finaliza.



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