Alô, criançada o Bingo chegou

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Miriam Gimenes

O nome pode não parecer familiar, mas se associado à imagem do palhaço ao qual se refere não tem erro: trata-se daquele mesmo, o que agitou a programação das crianças que tiveram a chance de desfrutar da famigerada década de 1980 (o tal programa foi transmitido entre 1980 e 1991 no SBT). Bingo – O Rei das Manhãs, que tem Vladimir Brichta no papel principal, estreia quinta que vem nos cinemas e promete mostrar, mais do que a história, os bastidores da TV na época.

E, como dizia o palhaço, essa ‘coxia’ não era para principiantes. Baseado na história de Arlindo Barreto – um dos inúmeros intérpretes do Bozo (o nome não pode ser usado por questões de direitos autorais, já que o personagem foi criado em 1946 nos Estados Unidos) –, o diretor, Daniel Rezende (Cidade de Deus e Tropa de Elite), mistura o que aconteceu na vida real com pitada de ficção. O resultado não poderia ser melhor.

O longa choca, principalmente quem na época era uma criança e, nem de longe, imaginava o que se passava com o palhaço em questão. Na história ele se chama Augusto Mendes (Vladimir) – os nomes dos personagens também foram trocados –, que conseguiu, após estrelar pornochanchadas, ser o intérprete do palhaço que havia conquistado não só os Estados Unidos como o mundo.

Começou a apresentar o programa infantil no terceiro lugar de preferência do telespectador. Perdia para uma tal apresentadora loira. “Até audiência, para subir, tem que ter tesão”, dizia para a diretora do programa Lucia (Leandra Leal), um tanto linha-dura. Ela, evangélica, arregalava os olhos a cada frase sua mas, com o tempo, o deixou se soltar.

E foi ao fugir do roteiro gringo, como ele dizia, que conquistou a criançada. Muitos iam lá apenas para ter a oportunidade de dar um beijo em seu nariz vermelho. Entre as ideias geniais, que o fizeram chegar no quase impossível primeiro lugar de audiência, foi levar o ‘rebolado’ de Gretchen (Emanuelle Araújo) para o palco do programa infantil, interagir com os pequenos por ligações telefônicas – que rendiam imprevistos hilários – e as brincadeiras interativas.

Quem teve a oportunidade de conhecer o palhaço pessoalmente foi o professor Ronaldo de Souza, 38 anos, que admite que ele era unanimidade na época. “Era muito divertido. A primeira vez que fui com a turma da escola ganhei um Atari, mas queria uma bicicleta. Adorava as brincadeiras”, lembra. Em uma segunda vez, o professor ganhou um urso, com o qual presenteou uma garota.

Só que um fator determinante fez com que o palhaço que, pela frente das câmeras, só fazia sorrir, por trás chorasse: a cláusula contratual que o proibia de dizer que era o Bingo. Se hoje as celebridades são ávidas nas redes sociais por ‘likes’, naquela época não era diferente.

De que adiantava ser famoso se ficava escondido por trás de um personagem? Foi ao ouvir isso do filho – por conta do trabalho do pai odiava o palhaço –, e depois da morte da mãe, que Bingo se afundou nas drogas, principalmente cocaína e bebida alcoólica. A fama, como se vê, não lhe caíra bem.

Arlindo Barreto, após chegar ao fundo do poço, virou pastor evangélico. E o Bingo,lembrado por outro nome, é claro, ganhou o status de clássico dos anos 1980 – viva a inocência infantil – e carrega ainda hoje com ele toda nostalgia que só quem assistir ao longa poderá constatar.




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