Nas linhas do tempo

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Vinícius Castelli

 Nada de salão de exposições, museu ou pinacoteca. A mostra, desta vez, não tem data de encerramento, tampouco cobra entrada. Ela acontece virtualmente, com o apoio de cerca 19 mil pessoas. São imagens de diversas décadas que resgatam a memória andreense. A ‘viagem no tempo’ pode ser apreciada no Facebook, no grupo chamado Fotos Antigas de Santo André.

Há imagens dos anos 1980, do teleférico do Parque do Pedroso, de taxistas em 1925, de uma festa junina na Praça do Carmo, em 1940, e até de entrega de diploma pela conclusão da 4ª série, em escola da Vila Helena. Isso sem contar com a de um casamento do fim dos anos 1958. Há até registro do Largo da Estátua, nos anos 1950, quando veículos ainda circulavam pela Rua Coronel Oliveira Lima, que hoje abriga um calçadão, e dos lanterninhas no extinto cinema Tangará.

Boa parte desses registros já foi publicada aqui e ali, até mesmo na coluna Memória deste Diário. Mas, segundo Rogério Pereira da Silva, 47 anos, responsável pelo grupo, 80% do material é inédito, garimpado das gavetas, baús e álbuns de família das pessoas que participam da reunião virtual.

O grupo, que existe desde 2011, hoje conta com cerca de 2.500 imagens, número que aumenta quase todo dia. Silva é motorista, representante de uma empresa, mas sua paixão, confessa, é por fotos antigas. E ele faz disso quase que uma terapia. “Tenho pouco tempo livre, mas cuidar do grupo me faz bem”, afirma.

Entre as imagens que a turma tem no acervo, uma das que mais impressionam Silva e também Luciano Malpelli, 59, andreense radicado em Goiânia e que ajuda na organização do grupo, é do criador da letra do hino de Santo André, José Amaral Vagner. “Tem também a foto de um ponto de táxi feita em 1925”, pontua Silva. Nem Pelé fica de fora. Há um registro dele nos anos 1960 na Vila Assunção, em foto cedida por Aneris Micchi Caramello.

Agora, se for para destacar algumas das imagens mais antigas, eles acreditam que são a dos choferes sentados no capô de seus táxis e na sacada do sindicato, no ano de 1925, além do furgão no posto de gasolina Atlantic, de 1950, entre algumas outras que valem ser descobertas por quem tiver interesse.

Como tudo ganhou corpo, a ideia de divulgar material que ninguém conhece se fortaleceu. Tanto que para publicar no grupo há um critério: Silva prefere fotos que sejam realmente inéditas em vez de reproduções. “Ele analisa cada pedido de postagem e reduz as fotos que já tenham sido publicadas em outros lugares”, explica Malpelli.

“Enxergo este grupo como a verdadeira expressão do sentido literário de ‘redes sociais’. Dezenas de milhares de pessoas interagindo, postando, comentando, se reencontrando”, diz Malpelli. Prova disso é que ele reencontrou sua professora do 1º ano, Maria José Rúbio. O primeiro contato foi feito por telefone. “A voz dela ainda tinha o mesmo som que existia em minha memória, com a mesma gentileza e atenção de 50 anos atrás. A outra emoção foi poder reencontrá-la em seu escritório de advocacia. Foi um abraço comovente e inesquecível”, recorda emocionado.

Com tanto material, Silva e Malpelli resolveram, por conta própria, preparar um livro virtual, Retratos Diferentes de Uma Santo André Descritos por Andreenses na Rede Social. Para fazer download gratuito basta pedir o link no grupo. “Quando pensamos em fazer isso (livro), pedimos para as pessoas postarem fotos que a cidade não conhecia e apareceu muita coisa”, afirma Silva.

O projeto é ilustrado por cerca de 50 imagens. A ideia, ao passar o pente-fino do que entraria para a obra, é que as imagens escolhidas emocionassem e tivessem alguma relevância. Depois, a dupla teve de pedir autorização para cada um dos donos dos respectivos cliques. Para isso, tiveram a ajuda da colaboradora Maria Claudia. Há as casas da Rua das Cerejeiras, em 1963, e também motorista de ônibus com o carro em 1946. Tudo levou, aproximadamente, um ano de trabalho. “Há a ideia de fazer um livro impresso, um trabalho com editora, que estivesse nas livrarias”, confessa Silva. “Queremos mostrar o projeto ao prefeito da cidade também, pois é uma memória viva, que está na cabeça das pessoas”, encerra.

Registros merecem cuidados
ADEMIR MEDICI
ademirmedici@dgabc.com.br

A era eletrônica é uma bênção para a construção e difusão da memória. O Facebook aproxima as pessoas na troca de informações e oferece maravilhas como este grupo andreense que busca e mostra fotografias de uma outra cidade, de um outro tempo, de uma outra atmosfera. Que bom!

É fundamental, por outro lado, que junto com as imagens sejam passadas informações simples, mas importantes. De quem é a foto? Quem a descobriu? Quem a fez? O ano da publicação ou a época aproximada. Uma breve descrição do cenário.

Em setembro a página Memória deste Diário completará 30 anos de publicação ininterrupta e faremos uma breve retrospectiva. A ideia é fazer justiça aos que, ao longo de três décadas, têm colaborado conosco. E essas dicas descritas acima serão mais desenvolvidas, dentro de um antigo e sempre atual ensinamento jornalístico, o lead das perguntas quem, quando, como, onde e porquê.

Senhores bloguistas, não se esqueçam de que por trás de cada imagem há pessoas, que podem e devem ter o seu esforço reconhecido.




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