Hebe eterna

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Miriam Gimenes

Hebe Camargo (1929-2012) não precisou ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras para ser imortal. Até porque a sua arte não podia ser colocada no papel: era impressa, na verdade, em seu sorriso. Foi com ele – e todo seu carisma e talento – que conseguiu conquistar o título de Rainha da Televisão Brasileira e traçar um caminho feito por poucos na história do maior meio de comunicação do País.

Não à toa, há um projeto em curso para homenageá-la. o Hebe Forever, que está sendo capitaneado pelo seu sobrinho Cláudio Pessutti. O pontapé inicial foi dado pelo lançamento do livro Hebe – a Biografia (BestSeller, 266 páginas, R$ 34,90) escrita pelo jornalista carioca Artur Xexéo. “A biografia faz parte de um projeto maior que é o de manter viva a trajetória da Hebe por meio de um musical, um filme e uma exposição itinerante. A biografia foi apenas o primeiro resultado desse projeto. Fui convidado pela editora para escrever a biografia, mas aceitei o desafio como se fosse ideia minha. Hebe é um personagem que me interessa e o universo no qual ela circula, que é a história da televisão, me interessa também”, explica o autor.

O musical e filme também estão próximos de sair do papel. “Devemos estrear o musical no segundo semestre, estamos no processo de seleção dos atores. Para a exposição, com as peças que guardou durante 70 anos de carreira, só falta achar o lugar e também deve sair ainda este ano. O filme, em 2018”, adianta Claudio.

Hebe Camargo começou a vida artística como cantora de programas de calouros, aos 13 anos, para ajudar a complementar a renda de sua família, que morava em Taubaté. Depois cantou em boates e no rádio. Mas foi na televisão que passou a ser nacionalmente conhecida. Segundo Xexéu, ela foi tão bem sucedida na sua carreira televisiva que a sua vocação original, a de cantora, ficou ofuscada. “Na TV Paulista, que a manteve sob contrato nos anos 1950, ela chegou a apresentar, simultaneamente, cinco programas semanais. Mas o livro se debruça sobre a carreira da cantora, registrando todas as gravações de Hebe”, adianta.

Para tanto, se dedicou durante um ano e meio à apuração. Conviveu com alguns de seus parentes, entrevistou seus amigos e pessoas que trabalharam com ela, e mergulhou nos arquivos de sua trajetória. Os namoros controversos, o casamento, o filho, o aborto que confessou publicamente ter feito, os medos, as cirurgias plásticas, a comida favorita, o amor pelo pai, os primeiros passos na carreira, o sucesso, os ressentimentos, as brigas, as amizades, as viagens, as críticas políticas que fazia na abertura de seu programa e lhe renderam brigas com o Congresso Nacional e conflitos no SBT, fazem, portanto, parte da obra.

Xexéu confessa ter se surpreendido ao perceber que, apesar do sucesso, da inteligência que sempre a acompanhara, Hebe sofria de baixa autoestima por não ter tido uma formação sólida e só ter estudado até o 4º ano primário. Mas não se deixava abater. “Ela foi feminista muito antes de se falar em feminismo. Em 1955, começou a apresentar, com grande sucesso, um programa de entrevistas chamado O Mundo é das Mulheres, no qual só entrevistava personalidades do sexo masculino e tentava convencê-las de que o mundo era comandado pelas mulheres. O fato de se impor como apresentadora e entrevistadora numa época em a televisão só permitia que essas funções fossem exercidas por homens já demonstra seu pioneirismo feminista”, ressalta o autor.

Ainda que tenha desencarnado há pouco, a sua espontaneidade e transparência – era a mesma, na frente e atrás das câmeras – a mantém viva no coração dos brasileiros.




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