Música é sinônimo de luta

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Karine Manchini

 “Quando canto, coloco na voz todas minhas angústias, dores, medos e também a alegria e amor de estar fazendo música”. É assim que a artista transexual de Santo André Sanara Santos, 18 anos, responde quando questionada sobre o sentimento de se expressar por meio da arte.

Jovem e já experiente, Sanara enfrenta o preconceito desde cedo. Se identificou como homossexual ainda na escola e sofreu bullying dos colegas de classe. Garota da periferia, era insultada com apelidos ofensivos, fora as agressões físicas. E nada adiantava reclamar com a diretora, porque o problema nunca foi resolvido e os culpados repreendidos.

“O bullying faz com que você exploda e leve a culpa pelo outro estar xingando. Comecei a reagir de maneira menos violenta, aparecendo mais, tendo representatividade e participando de atividades para que as pessoas tivessem respeito por mim”, conta. A artista ainda diz que as situações foram tão dolorosas que fizeram mal para seu psicológico, prejudicando sua autoestima, pois sempre era criticada.

Foi na arte que encontrou alegria e um caminho para a liberdade. O amor pela música surgiu tão cedo quanto as agressões físicas e psicológicas que sofria. Aos 11 anos, já gostava de cantar em qualquer lugar que lhe fosse cedido, mas se dedica profissionalmente à música há apenas seis meses. Com voz marcante e grave se dedica a cantar temas de origem negra, como rap, samba e funk, entre outros.

Foi convidada em maio para participar da Virada Cultural paulistana pelo coletivo Manas e Monas. Com a ‘cara e a coragem’ levou um trabalho em que fala sobre pessoas transgêneras e relata o que elas sofrem por assumirem o que são. “Pessoas trans tem como expectativa de vida 32 anos em média, e isso é muito pouco. Na canção falava tudo isso e citava a transexual Dandara, que foi espancada, assassinada e ainda teve os vídeos em que era torturada divulgados nas redes sociais. Na música trato disso e mostro que o grito de socorro dela não foi atendido”, explica.

A cantora vive sozinha e se mantém somente da música. Quando não consegue dinheiro necessário, faz um sistema de reciclagem de comida indo até feiras de rua da região e recolhe o que seria desperdiçado, mas que ainda está próprio para uso. Mesmo com todos os obstáculos que enfrenta, ela sonha. A falta de recursos para sua arte ainda preocupa, mas uma coisa é certeza: quer que a carreira siga e ganhe força. Ela se apresentará no Sesc Registro em 21 de julho com o Sarau da Quebrada.




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