Sob o sol da Toscana

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Soraia Abreu Pedrozo

Se você já assistiu Sob o Sol da Toscana, de Audrey Wells, dezenas de vezes ao longo da vida, e se imaginou por lá outras tantas vezes, mesmo que o seu roteiro não passe por Cortona, onde o filme foi rodado, a expectativa versus realidade é plenamente atendida. Isso porque o lugar é simplesmente cinematográfico. Parece mesmo saído de um conto de fadas. Os imponentes cipestres, marca registrada toscana, dão o ar da graça em casas, hotéis e estradinhas vicinais que ligam uma cidadela a outra a alguns minutos de distância. Cidades estas que parecem ter parado no tempo, devido ao fato de estarem incrivelmente preservadas. Dá até para fantasiar que estamos vivendo na era medieval. E mesmo que você não visite exatamente cenários vistos em filmes, não há como se decepcionar, pois a Toscana é riquíssima em paisagens e história. Verdadeira caixinha de surpresas.

Uma dessas surpresas é Colle di Val D’Elsa, fabricante de cristais italianos, que escolhi como ponto de partida para percorrer a região e minha base na Toscana. Fica no meio do caminho entre Siena e San Gimignano. Os locais reivindicam que ali foi criada a história de Pinocchio, a estrela italiana dos contos infantis. Tanto que, como début em Colle, em um fim de semana de junho, fui presenteada com um espetáculo que tomou conta de toda a cidade murada, com teatro itinerante, crianças brincando pelas ruas de pedra, barracas de comida típica e muita gente amável e disposta a trocar um dedo de prosa – coisa que em Roma é bem mais difícil de se ver, talvez porque o local seja bem menos turístico.

Se no Brasil a infância dos dias de hoje pouco sabe da fábula do boneco de madeira cujo nariz cresce a cada mentira dita, parte da memória afetiva de quem tem mais de 30 anos, na Itália o filho de Gepetto, orgulho nacional, não tem ‘data de validade’, e é idolatrado pelos pequenos dos dias de hoje. Foi quando escorreu a primeira lágrima de emoção por estar naquele cenário – que não tem outra palavra para ser descrito senão mágico.

LENDA DO GALLO NERO
Dali é um pulinho para a região do Chianti, tradicional produtora de vinhos. Inclusive, uma das primeiras histórias que aprendi foi a lenda do Gallo Nero. Como apreciadora da bebida, notei que em alguns havia um galo negro. Em outros, um branco. Ambos dão a chancela da origem da bebida. Na era medieval, Florença e Siena disputavam o posicionamento de fronteiras entre seus territórios que tinha, no meio do caminho, o Chianti. Ficou acordado então que a área seria demarcada onde os cavaleiros se encontrassem. A saída ocorreria assim que o Sol nascesse e o galo cantasse. O galo de Siena, branco, foi bem alimentado com o intuito de ter o canto mais forte. O de Florença, o preto, por sua vez, não recebeu comida e, de tanta fome que sentia, começou a cantar antes. Como resultado, o cavaleiro florense saiu mais cedo e encontrou o senês perto de seu lar, portanto, Florença ganhou o Chianti e ficou com território maior. 

Joias medievais que pararam no tempo

A Toscana realmente emociona. Muitas vezes. E em um roteiro de quatro dias é possível explorar algumas dessas maravilhas italianas. A cerca de 30 minutos de Colle está Siena. Para quem vai de carro, é bom parar em um estacionamento enorme na entrada da cidade murada – nos interiores dela só é permitido aos moradres pararem os veículos. A cidade de cor ocre é encantadora. Tem ruazinhas lindas, com lojinhas e restaurantes charmosos, pelas quais é uma delícia passear. Ao desembocar na Praça Piazza Del Campo, em formato circular, se tem uma sensação de conforto e dá para imaginar perfeitamente como era viver ali alguns séculos atrás. Muita gente simplesmente senta no chão e aprecia o movimento – isso só não será possível se a visita ocorrer em 2 de julho e 16 de agosto, quando o Palio di Siena, tradicional corrida de cavalos que remonta à Era Medieval, é realizada. <EM>

A poucos passos dali está a magnífica Duomo di Siena (14 euros), que parece saída de um conto de fadas, erguida em mármore de três cores: branco, rosa e verde. Singular, tem paredes listradas em seu interior, bustos das cabeças de mais de 100 papas em seu interior e o teto é azul com estrelas. Trata-se de verdadeira obra de arte. A vista de cima da catedral vale muito a pena, porém, para alcançá-la é necessário vencer escadinha enclinada e clastrofóbica.

No meio do caminho de volta a Colle está, no alto da colina, a minúscula Monteriggioni. Vale a pena passar para conhecê-la. Graciosa, suas poucas casinhas parecem ter parado no tempo, e é possível ver crianças – que aqui são pré-adolescentes e não saem do computador e celular – brincando nas ruelas. É bonito de se ver. Se não estiver muito tarde, dá para percorrer a muralha que emoldura o vilarejo, imortalizada em a Divina Comédia, de Dante.

GELATO PREMIADO 

A pouco mais de 20 minutos de Colle está a preciosa San Gimignano. O destino é conhecido de quem gosta de uma novela. Terra Nostra teve locações na cidade. Na Piazza della Cisterna está a Gelateria Dondoli, que já recebeu por quatro vezes o título de melhor sorvete do mundo. O proprietário, Sergio Dondoli, é atração à parte. Simpático, ele costuma conversar com os turistas que ficam nas filas e perguntar de onde são, e se orgulha do sabor de açafrão. São uns dos dois euros mais bem gastos em toda a viagem.

Val d’Orcia visto de cima, a bordo do balão

Uma das maneiras mais originais de se conhecer o Val D’Orcia é a bordo de um balão. A empresa Ballooning in Tuscany (www.ballooningintuscany.com) reúne os interessados ainda de madrugada em Montisi, distante cerca de 80 quilômetros de Colle. A experiência custa caro (280 euros), mas é inesquecível. Vale cada centavo se ver na altura das nuvens e apreciar os vinhedos e vilarejos medievais do alto. Uma das lindas cidades de que se tem vista privilegiada é Montichiello. No pouso, somos recebidos por piquenique com espumante e café da manhã com comidas típicas.

De volta à charmosíssima Montisi, a sensibilidade dos hábitos dos poucos moradores nos deixa apaixonados pelo lugar. Nas casinhas, além de muitas flores, se veem varais com roupinhas de bebê que conferem mais beleza e autenticidade ao lugar. Além disso, é possível tirar um cochilo no estacionamento público local antes de seguir viagem. Algumas estradinhas vicinais dali se chega a Montepulciano, deliciosa para bater perna nas muitas lojinhas de vinho, inclusive. São de lá os saborosos Montepulciano d’Abruzzo e Nobile de Montepulciano.Dali dá para seguir a Montalcino, terra de um dos tintos mais caros do mundo, o Brunello di Montalcino. Mesmo sem investir na bebida, vale e muito a ida até a cidade, igualmente charmosa.

Pisa e sua torre pendente têm espaço para todos e diversão de sobra

Poucas experiências na vida são tão divertidas quanto tirar dezenas de fotos pertinho da Torre de Pisa, na cidade homônima. Até que a gente acerte o ângulo, lá se vão alguns cliques – se fosse no tempo do filme fotográfico, o prejuízo seria grande. 

Por isso é bom ir com tempo à cidade, estender uma canga no gramado e ficar brincando com as infinitas possibilidades que o monumento oferece. 

Democrático, o local é amplo e rende bons momentos mesmo para quem não subir na torre (18 euros). Histórico, erguido no século 12, quando já começou a inclinar, é possível imaginar Galileu Galilei em sua terra natal, do alto do campanário, realizando experimento que consistia em jogar duas bolas de pesos diferentes, e que chegavam ao solo ao mesmo tempo.

Durante a visita a Pisa vale explorar o entorno da Piazza dei Miracoli e se perder pelas ruazinhas repletas de lojas, feiras e restaurantes até se deparar com o Rio Arno, o que lhe confere um ar de Florença. Dica de souvenir que vale trazer na mala é a luminária réplica da torre em mármore.

O único senão é chegar até essa região, já que a cidade é grande. O ideal é ir de trem, já que a estação está perto dali. De carro é um tanto confuso, principalmente a quem depende do GPS integrado e não tem internet. É difícil se locomover dentro da cidade e para acessar a estrada que leva à Florença, distante uma hora dali e geralmente base para o passeio. 

 



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