Mulheres têm pescaria como profissão

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Vanessa de Oliveira

Para algumas mulheres, a resposta à básica pergunta “qual a sua profissão?” é rebatida, com espanto, por outra indagação: “Pescadora!” Sim, pescadora, por que não? Dos 320 integrantes da Colônia de Pescadores Z-17-Orlando Feliciano, de São Bernardo, que possuem registro de pescador profissional, 96 são do público feminino e têm a Represa Billings como escritório. 

Gisele Rochumback Gava, 31 anos, recorda um episódio em que o trabalho dela causou surpresa – e justamente para outra mulher. “A atendente do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) perguntou com o que eu trabalhava. Quando falei que era pescadora, ela disse: ‘Não, perguntei qual a sua profissão?’”, relembra.

A jovem cresceu em meio à pesca. Com 7 anos, ajudava o pai – já falecido e que dá o nome à Colônia, presidida pela mãe de Gisele, Vanderlea Rochumback Dias, 49 – a limpar os peixes que ele trazia. Na adolescência, quando Feliciano não arrumava ajudante para acompanhá-lo nas pescarias, Gisele se prontificava. Em paralelo fez curso técnico de Administração, trabalhou como jovem aprendiz em uma multinacional, mas era nas águas mesmo que ela se encontrava. “Muita gente taxa que pescador vive disso porque não tem opção. Eu tive e não quis. Meu pai criou os filhos a vida inteira assim e a pesca representa tudo para mim”, frisa. 

A frase ‘filho de peixe, peixinho é’ se enquadra perfeitamente à família. A mãe de Gisele também foi criada no meio, morando com os pais e os avós em um barco até os 4 anos. Quando acompanhava o marido nos arredores da balsa do Riacho Grande para vender os pescados, uma situação a incomodava. 

“Os homens vendiam o peixe in natura, sem limpar, e acabava sobrando boa parte”, recorda Vanderlea. O capricho feminino valorizou o produto. “Comecei a limpá-los, ia de manhã até a noite. Com os peixes limpos e nas bandejas, as vendas ficaram maiores. A mulher agrega valor ao material”, ressalta. O quilo do peixe sem estar limpo, segundo ela, vale R$ 5. Do contrário, o valor cobrado chega a dobrar.

Shirley Aparecida Torrisi, 45, também herdou a profissão dos familiares. “Meus pais moravam dentro de um barco e quase nasci nele. É que deu tempo de chegar ao hospital”, fala. Tendo a Billings como quintal de casa, há 23 anos ela mantém a rotina de armar a rede, retirá-la ao fim do dia com os pescados e fazer o processo de limpeza e corte do alimento. “Nunca pensei em fazer outra coisa que não fosse pescar. E foi com isso que comprei barco, motor e construí minha casa”, diz. 

A quantidade de peixe pescado diariamente varia “de acordo com a natureza”, pontua Shirley e, consequentemente, também muda a renda – “às vezes, um salário mínimo por mês (R$ 937), um pouco mais ou um pouco menos”. As vendas são feitas na própria residência.

Ditado popular indica a pescaria para quem está nervoso e precisando relaxar. O ato realmente é terápico já que, no ambiente, a calmaria impera. Mas, como diria outro dito, toda regra tem exceção. “Tem dia que é relaxante, mas há outros em que a gente pega toco de madeira que rasga a rede e não é nada agradável”, reclama. 

A pescadora Elisangela Roberta da Costa Hessel, 40, quem diria, não suportava o cheiro de peixe até sete anos atrás e tinha pânico de entrar em um barco. Porém, o amor da vida dela era, justamente, um pescador. “Comecei a ajudar meu marido e aprendi a dar valor. O amor me fez simpatizar e, agora, a pesca é tudo de bom.”

Pescadoras chamam a atenção de ONG internacional

Ao conhecer o trabalho das pescadoras de São Bernardo, a ONG (Organização Não-Governamental) holandesa Women For Water Partnership (Parceria Mulheres Para a Água, em tradução livre) quer a participação delas no 8º Fórum Mundial da Água, a ser realizado de 18 a 23 de março de 2018, em Brasília. O evento reunirá os principais especialistas, gestores e organizações envolvidos com a questão da água no planeta. 

“Uma amiga assistiu a uma palestra sobre cooperativas de economia solidária na qual, no fim, a palestrante comentou sobre a Colônia de São Bernardo e as pescadoras que fazem parte dela. Então, ela comentou comigo e vim conhecer a atuação delas”, conta Margarida Yassuda, única representante da Women For Water Partnership no Brasil. 

A ONG tem a água como ponto de entrada para o empoderamento das mulheres, por isso, o trabalho das pescadoras despertou a atenção. “Queremos ter espaço no fórum para elas falarem sobre o trabalho. Para isso, pedi à presidente da Colônia para me entregar, por escrito, um resumo do que elas executam, que será traduzido para o inglês, a fim de apresentarmos a proposta e tentar encaixá-las em um dos painéis de debate”, fala Margarida. 

A representante destacou o importante papel que as pescadoras exercem ao conquistar espaço em atividade antes associada unicamente ao universo masculino. “Por meio da pesca elas conseguiram empoderamento, viram oportunidade de terem independência financeira. Ao adentrar em um mundo fechado para homens, elas abrem caminhos.” 

 

Setecidades - Diário do Grande ABC - Edição: 05/06/2017




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