Disco dos discos

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Vinícius Castelli<br>Do Diário do Grande ABC

A efervescência cultural em 1967 era absoluta. Não havia espaço para o enlatado. E naquele ano nada, absolutamente nada, na música tinha limite. Lá nasceram discos como Surrealistic Pillow (Jefferson Airplane), Are You Experienced (The Jimi Hendrix Experience) e Disraeli Gears (Cream). Mas uma obra, entre tantas preciosas, foi além e está marcada para sempre. Os Beatles já haviam abandonado a fase ‘Iê Iê Iê’ e experimentado em Rubber Soul e Revolver. Mas não era o suficiente para o quarteto de Liverpool.
No dia 1º de junho de 1967 o mundo viu e ouviu Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, que hoje completa seu cinquentenário e segue imponente, importante e único. John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr estavam mais maduros e ousados do que nunca. Sons de instrumentos de orquestra sendo afinados dão início ao trabalho na faixa título.
Aliás, dias depois do lançamento do álbum, Jimi Hendrix, jovem negro que roubava a cena mundial com sua guitarra revolucionária, apresentou sua versão da música ao vivo em Londres, com Paul e Ringo na plateia.
Rodrigo Suricato, cantor da banda Barão Vermelho, tem a obra como especial. “É um dos raros discos que conseguem unir música pop com sofisticação artística do início ao fim. O conceito é tão primoroso quanto as canções e ainda soa muito moderno. É liberdade artística e disciplina ao mesmo tempo”, diz.
Ringo, na obra, se destacou cantando a clássica With A Little Help For My Friends, relida em 1969 por Joe Cocker em apresentação em Woodstock. Sgt. Pepper’s é clássico atrás de clássico, tanto que é dele que salta a lisérgica Lucy in The Sky With Diamonds, cujas iniciais formam a sigla para LSD. Mera coincidência, segundo Lennon. A guitarra fica ácida e explora efeitos na empolgante Fixing a Hole.
Como não bastasse, há ainda temas como Lovely Rita e She’s Leaving Home. Harrison contribui com maestria, com instrumentos como sitar, na bela Within You Without You.
Sgt. Pepper’s é tão forte que ultrapassa a barreira da música. Para o poeta e escritor da região Fabiano Calixto, o álbum influenciou todo mundo, dentro e fora da música. “Fundou outras gramáticas da vida. É um disco impossível. Inigualável. É, para mim, o disco mais importante da história da canção popular”, afirma. Guitarrista veterano de Santo André, Edu Romano é outro que se dobra ao trabalho. “O ano de 1967 foi mágico para a música pop. A psicodelia dos Beatles ditou a regra e expandiu a ideia para outras bandas no mundo”, diz.
Nem o blues ficou de fora da influência do álbum. Silvio Alemão, da banda Irmandade do Blues, conta que a faixa A Day in The Life mudou seu conceito de execução, dinâmica e composição. “Uma obra-prima dos Beatles’, diz.
E mesmo com 50 anos, Sgt Pepper’s vem abatendo novas gerações. Para Jean Moura, guitarrista de 27 anos da banda andreense Rhino, Sgt. Pepper’s mexe com as emoções. “Lembro que com 12 anos estava ouvindo bastante ele e enfrentei a primeira morte na minha família. Foi um horror, fiquei muito abalado e esse álbum ajudou bastante na época”, explica.
Como não bastasse a viagem sonora, há ainda a capa assinada pelo artista pop Peter Blake, que pode levar dias até que quem a veja perceba todos os detalhes. Para Abel Rocha, maestro da Orquestra Sinfônica andreense, é impossível fugir da audição do disco. “Quem viveu naquela época foi influenciado por essa sonoridade. São muitas coisas juntas em um volume só. A própria capa do disco tinha conceito genérico de obra de arte.” 




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