Trilha Inca para Machu Picchu

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Rogério Santos/Especial para o Diário

Conhecer a cidade de Machu Picchu na província de Cusco, no Peru, é o sonho de todo viajante, seja ele mochileiro ou não. Com sua arquitetura única e localização em meio à natureza exuberante, o local atrai milhares de visitantes do mundo todo. A cidade é a mais antiga do chamado Vale Sagrado, e concentra a maior parte das ruínas do império derrubado pela conquista espanhola em 1553. Foi erguida no auge do Império Inca, que dominou a região entre os séculos 15 e 16.

Eu e minha mulher, Milena Machado, não fugimos à ‘regra dos viajantes’. Decidimos, portanto, em março deste ano, fazer a trilha inca, famosa e temida por seu grau de dificuldade. Depois de encarar o desafio posso relatar que a escolha foi mais que acertada, pois se trata de experiência única, que todos devem vivenciar.

Mas como chegar a Machu Picchu? Há uma maneira dita mais ‘tranquila’, que é pegar um trem na cidade de Ollamtaytambo, rumo a Águas Calientes, base para visitar o Vale Sagrado. De lá pega-se um ônibus, que demora 20 minutos para chegar ao local. Apesar das longas filas, sai um atrás do outro. O preço médio da passagem de trem é entre US$ 50 e US$ 450 (entre R$ 175 e R$ 1.575). Os valores são pagos em dólar mesmo. Portanto, quem for ao Peru é bom ter a moeda norte-americana em mãos.

A segunda opção é seguir por trilha. Existe uma que é gratuita, mas complicada de ser feita, conhecida como trilha da hidrelétrica. Não exige muito fisicamente, mas não é recomendada a menos que se estude bem o caminho.

A opção mais comum, feita por nós e pela maioria dos turistas, é o caminho oferecido por agências especializadas. Os percursos podem ser de dois dias, quatro, sete ou 21.

Optamos pelo caminho de quatro dias. Em Cusco há várias agências que oferecem o pacote da Trilha Inca. É impossível andar pela cidade e não ser abordado por algum funcionários das companhias, que disputam avidamente cada turista que anda pelas ruas. Como já havíamos reservado nosso pacote ainda no Brasil não precisamos nos preocupar.

Pagamos US$ 510 (cerca de R$ 1.785). O pacote inclui guia, alimentação e hospedagem em barracas. Vale ressaltar que março é baixa temporada e os preços tendem a aumentar a partir de maio. Na agência também alugamos bastões utilizados para ajudar no equilíbrio durante a trilha, por US$ 15 (R$ 52,5) cada um e sacos de dormir no valor de US$ 30 (R$ 105 cada), muito úteis nas noites frias.

Nossa preparação para Trilha Inca incluiu uma mochila pequena para cada um com roupas de frio, toca, luva, capa de chuva, doces, chocolates, remédios, folhas de coca e produtos de higiene. Levar mochilas grandes não é recomendável, a não ser que você esteja disposto a pagar US$ 70 (R$ 245) por um carregador particular. Menos é mais.

A alimentação não foi problema durante os quatro dias de caminhada, já que o staff das empresas de turismo conta, além dos guias e dos carregadores, com um cozinheiro, que, por sinal, faz uma comida deliciosa, mesmo em condições adversas como as da trilha.

CARREGADORES

Desde que começamos a fazer o caminho inca, uma situação nos chamou atenção: o trabalho dos ‘porteadores’, nativos – em sua maioria da etnia quechua – contratados pelas agências de turismo para carregar toda a estrutura utilizada durante o caminho. Algumas bagagens chegavam a 40 quilos.

São adolescentes, homens de meia-idade e mesmo idosos que desempenham esse trabalho. Tentei saber de nosso guia quanto eles recebiam por isso, mas minhas tentativas terminavam sem resposta.

Alguns porteadores também são contratados para carregar o equipamento dos turistas que desejam mais mobilidade, ao preço de US$ 70 (R$ 245).

Quatro dias de aventura em cenário deslumbrante

No primeiro dia rumo a Machu Picchu a empolgação é grande, mas já na chegada a Olantaytambo a euforia vai dando lugar à realidade. Após checar os equipamentos e passar bloqueador solar é hora de cair na estrada. Serão 45 quilômetros percorridos até o grande objetivo.

Os primeiros metros são pura adrenalina, sem pensar nas dificuldades que virão depois. Logo a primeira parada no posto das autoridades locais para checagem dos documentos. É imprescindível levar o passaporte e deixar num local protegido e acessível. Passada a burocracia é hora de seguir viagem, caminhando sem parar até mais ou menos as 13h, quando ocorre a pausa para o almoço. Impossível não se admirar com a paisagem da natureza exuberante e praticamente intacta. Continuamos a caminhada.

No fim do dia, fomos agraciados com a ‘hora da pipoca’, momento de descontração e interação entre os mochileiros, com bebidas quentes e ótimo bate-papo. Após a janta a ordem é descansar. Detalhe, não dá para tomar banho.

O segundo dia é considerado o mais difícil da trilha, afinal são percorridos cerca de 16 quilômetros entre subidas e descidas íngremes. É nesta etapa do percurso que se chega ao trecho mais alto da travessia, a 4.275 metros acima do nível do mar. Março é o mês de chuva no Peru e enfrentamos muita água neste dia. As roupas encharcadas e o visível cansaço tornam a travessia um desafio e tanto. A aventura continua, já estamos no terceiro dia. O cansaço é mais latente e a necessidade de tomar banho também. A empolgação dá lugar a dores no corpo, calos nos pés, fadiga. A sensação que se tem é que não chegaremos a Machu Picchu, mas a exuberância da natureza, com suas cachoeiras escondidas, formações rochosas de desenhos únicos, no anima a seguir em frente. Na última noite com a equipe da empresa de turismo, um animado jantar, com direito a bolo preparado pelo nosso chef de cozinha itinerante. Desta vez no ponto de parada havia uma opção para tomar banho: um cano de onde saia uma água geladíssima.

O último dia de trilha foi também o de mais expectativa. Acordamos às 3h para sair e esperar a abertura do posto de controle para ingressar no parque sagrado de Machu Picchu. A cada passo a expectativa aumentava e toda a fadiga dos dias sem banho, com dores no corpo, ia dando lugar à euforia de conhecer uma das sete maravilhas do mundo moderno.

A chegada é deslumbrante. Aos poucos a névoa que cobre a região vai diminuindo e a inconfundível formação rochosa vai se tornando visível. Mais alguns metros de descida e estamos no ponto turístico mais visitado do Peru.

Andar por ali, em meio ao batalhão de turistas, e ouvir as histórias de como a civilização inca era avançada, com moderno sistema de irrigação para lavoura e casas que permitiam a entrada da luz do sol, é incrível. A conclusão que cheguei é que Machu Picchu é linda, mas vivenciar a experiência do caminho inca é indescritível.

 

 




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