Retrato de tempos difíceis

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Karine Manchini<br>Especial para o Diário

 Ao entrar na casa em um bairro calmo de São Bernardo é impossível não se emocionar com o que se encontra lá dentro. Uma série de obras de arte, criadas de forma tão realista que parecem estar olhando e mostrando seus sentimentos para as visitas que chegam. Pinturas que retratam a dor de quem sofreu com uma vida difícil em tempos sombrios.
Conhecido por representar em quadros a importância de dar voz aos mais oprimidos, Gontran Guanaes Netto, 84 anos, artista plástico nascido no Interior de São Paulo, professor e integrante dos Direitos Humanos da ONU, foi preso político durante a ditadura militar brasileira, nos anos 1960, e é o criador de grandiosa riqueza artística.
Durante a prisão, foi torturado e precisou fugir do País. Se abrigou na França, onde reside até hoje, mas deixou no Grande ABC boa parte de sua história. Sob os cuidados de seu sobrinho Mauro Guanaes, 50 anos, um acervo com muitas obras marcantes e realistas que retratam com arte engajada os trabalhadores do campo, boias-frias e períodos históricos de intenso sofrimento, como a ditadura militar, além de guerras no mundo.
Entre indas e vindas da França, abdicou das obras, inclusive atestado em documento. “Quando ele fechou (o ateliê) para voltar à França, não havia decidido sobre o que fazer com os quadros. Pensou em vender tudo, mas falou para mim: ‘Mauro, você será meu depositário e protegerá as obras que ficarão’. Como eu tinha este imóvel, decidi colocá-las aqui”, explica o sobrinho, que também é artista plástico e trabalha produzindo manual para montadoras de carros.
Mauro não sabe informar quantas obras o tio criou, já que algumas são mantidas em um ateliê em Itapecerica da Serra e outras se perderam com o tempo, mas guarda com carinho as que estão sob seus cuidados. “Meu tio participou de diversas exposições desde 1955 e tem painéis muralistas em duas estações de Metrô em São Paulo, Marechal Deodoro e Corinthians-Itaquera. Inclusive, na França conheceu um grupo de artistas que foram exilados de outros países da América do Sul e juntos fizeram sete telas que retratam as torturas na época do regime militar com base nos relatos do Frei Tito de Alencar, que foi preso no período”, explica.
Recentemente Gontram sofreu um AVC (Acidente Vascular Cerebral) e se recupera em clínica na França. Seu sobrinho mostra foto do tio abatido, com cabelo curto, mas conta que assim que ele se recuperar deixará cabelo e barba crescerem novamente, já que essa é sua marca registrada.




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