Abismo entre pai e filho

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Karine Manchini<br>Especial para o Diário

 Quem se propõe a assistir a um filme geralmente espera pelo final clichê em que os personagens são ‘felizes para sempre’. Por isso, é bom avisar: se a opção for o filme brasileiro Travessia, dirigido por João Gabriel, vá com a mente aberta. O longa conta a história de um drama familiar – que lida com conflitos, luto, perdas e tristezas – e não segue fórmula pronta das tramas de cinema.
Com poucos personagens e quase nenhuma interação entre eles, o filme parece querer retratar o sentimento interno e individual de cada intérprete, que expressam por meio de olhares infelizes e sombrios o sofrimento que os atinge.
Composto por um elenco de peso, com atores como Chico Diaz, Caio Castro, Camilla Camargo e Cyria Coentro, o longa conta a história de Roberto (Chico Diaz), um homem que acabou de perder a mulher, virou alcoólatra e, por isso, arruma mais problemas. Apesar de se esforçar, o homem não consegue ter uma boa relação com o filho Júlio (Caio Castro), que não quer ver seu pai de nenhuma maneira. Por isso, sai de casa e se envolve com o tráfico de drogas para ganhar dinheiro e viver de forma independente com sua namorada.
A história é filmada em Salvador, na Bahia, e, ao contrário da alegria da cidade, famosa pelo Carnaval, são retratados nas filmagens a tristeza, a pobreza e o tráfico. A produção deixa o público com um gostinho de quero mais e com a curiosidade de saber o que aconteceu entre pai e filho e o que desencadeou o fracasso da relação entre eles.
Para Chico Diaz, interpretar um personagem cheio de problemas foi um desafio que o motivou a aceitar o convite para o papel. “Achei interessante fazer esse pai de família que de repente vê sua família toda sem estrutura, completamente perdido e sem entender como tudo aconteceu. Para um ator é muito interessante contar essa história, é um exercício em tempos que a alegria e a felicidade são quase que obrigatórias. Se a gente não conseguir ver o nosso lado cinzento, não vamos nos complementar como seres humanos”, explica o ator.
Chico ganhou o prêmio de Melhor Ator no 10° Festival de Aruanda pelo personagem Roberto, e está clara no filme a grande preparação sentimental que o ator quer transmitir. “Faço partitura prévia de todo o filme e de como explorar cada cena. Estudo quais são as mudanças de sentimento do personagem, vou cercando aquela dor usando estímulos pessoais, pois nós atores, temos um ‘banco de dados’ de sentimentos que nos estimulam na atuação”, revela. Basta ver o filme para notar que ele fez, muito bem, a ‘lição de casa’.




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