A bike & ela

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Marcela Munhoz

Sabe aquele sonho que parece impossível e, muitas vezes, não sai da gaveta dos desejos até a próxima encarnação? Tem gente que não espera tanto assim. Após se separar, em 2015, Juliana Hirata, 37 anos, resolveu responder, na prática, a uma pergunta que sempre a instigou: ‘O que é que quero saber de verdade?’.

“Vendi tudo o que podia, quitei dividas, desfiz contratos, fechei conta no banco, cancelei plano de telefone, juntei o dinheiro que tinha e, com a ajuda de algumas pessoas, consegui reunir o suficiente (média de US$ 10 por dia). Fui ficando cada vez mais leve e livre. Era hora de ter a coragem de fazer o que sempre quis, viajar em busca da tal resposta”, conta a são-bernardense. “A separação foi a chance para que pudesse, novamente, ter a vida que havia abandonado há anos. A vida de descoberta, aventura, de coragem, liberdade e totalmente fora da minha zona de conforto.”

Durante nove meses, a bióloga planejou a aventura Extremos das Américas. No roteiro, 50 unidades de conservação em 14 países, totalizando 28.560 quilômetros em dois anos na estrada – partindo de Prudhoe Bay (Alaska) até a Tierra del Fuego (Argentina). A viagem começou em abril de 2016 e deve terminar em abril de 2018. Agora, ela está bem no meio do caminho, no México. “Planejamento é só para dar um norte, de onde obtenho referências, mas boa parte da viagem acontece na prática. Estar na estrada exige adaptações constantes. O novo e inesperado são parte do trajeto, e eu adoro isso.”

E se a aventura já parecia boa só pela ideia de percorrer lugares inacreditáveis e com a natureza tão presente – por ser bióloga, ela procura entender “por que algumas sociedades amam proteger ambientes naturais e outras sociedades possuem uma relação de conflito com essas áreas”–, dois detalhes deixam a trajetória de Juliana ainda mais marcante: ela está de bicicleta e sozinha.

“Saber que não havia muitas mulheres sozinhas de bicicleta foi outra grande questão. Aparentemente as Américas são destinos mais inóspitos para a presença feminina. No momento, sei de oito – comigo nove – por aqui de bicicleta. Todas são inspirações. Me juntei a elas pelo direito de viajarmos na nossa própria companhia. Viajar sozinha é ainda um ato de resistência”, acredita.

Medo, autoconhecimento e encantamento são companheiros
“Esta tem sido a experiência de autoconhecimento mais importante da minha vida”, conta Juliana Hirata, que sempre andou de bicicleta. “Ver a relação tempo/espaço se concretizar nos quilômetros percorridos é outra sensação boa de viajar de bike. Cada centímetro de estrada percorrido foi feito com minhas próprias pernas, esforço e em batalhas mentais, às vezes complexas, outras, simples. Os desafios, que antes eram grandes, vão ficando menores com o tempo e minha relação com meu corpo hoje é de carinho e amor.”

Segundo a são-bernardense, ela não sabe como estará quando a aventura terminar – “Penso no que passou, planejo o futuro, mas vivo o presente” – porém cada segundo até agora já valeu a pena. Ela destaca alguns episódios marcantes, como o impressionante frio do Alasca (chegou a pegar -24°C dentro da barraca), ver a Aurora Boreal no Ártico, o primeiro contato com ursos, a tempestade de raios no meio na floresta canadense, as noites estrelados nos desertos de Utah e Califórnia, as baleias cinzentas na península de Baixa Califórnia e as mariposas Monarcas em Michoacan, no México”.

E a pergunta inevitável depois de tudo isso: já sentiu medo? “Meus medos estão sempre por perto e assim os quero. No início, sentia todos os dias, cada dia um diferente. Os medos que tenho experimentado sobre a bike e em lugares mais selvagens são do tipo bom, que me faz sentir mais forte. O medo como mulher já sentia nas cidades. É o medo de outros seres humanos. Nas cidades e em lugares habitados estou mais vulnerável.”

 

Acompanhe a aventura de Juliana Hirata pela internet: 

> Facebook (julihirata); 

> Instagram (@juli_hirata);

> Twitter (julihirata);

> Site www.julihirata.com. 




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