Tesouros guardados no quartinho dos fundos

Envie para um(a) amigo(a) Imprimir Comentar A- A A+

Compartilhe:

Caroline Garcia

Não é difícil entrar em uma casa e encontrar penteadeira ou cômoda antigas. Geral­mente, são móveis que pertenciam a gerações anteriores, herdados de avôs e avós, e que já acumulam algumas décadas de uso. O problema é que esse mobiliário, muitas vezes desgastado pelo tempo, tem um único destino: o quartinho dos fundos. “Esses quartinhos são os lugares dos quais mais gosto. É onde estão os tesouros”, afirma o restaurador Glauber Cunha, 37, proprietário do Jardins de Ma­nacá, localizado em Santo André.

Natural de Pernambuco e formado em Geografia, Cunha mudou-se para São Paulo há 13 anos e há dez largou tudo para ser especialista na arte de restauração. “Sempre fui muito bom em Educação Artística, desde os tempos do colégio, mas não tinha experiência alguma em restauração. Abri a porta e esperei as pessoas entrarem. Posso garantir que entra gente todo dia.”
Em meio às cristaleiras, camas, cadeiras, berços, guarda-roupas, vitrolas, fogões, relógios, penteadeiras, criados-mudos recheados de histórias familiares, Cunha garante que qualquer tipo de móvel pode ser restaurado. “Chega de tudo e de todas as épocas. Estou com uma máquina de costura de 1928, que era da bisavó de uma cliente. Um fogão da década de 1950, que já foi reservado para compra assim que chegou, e um berço de 1937, que a avó está presenteando o neto.” O tempo, em média, para deixar o antigo como novo é de 30 dias. O preço, no entanto, não é possível determinar com exatidão, já que cada peça possui sua peculiaridade. Uma cômoda, por exemplo, com três gavetas grandes e duas pequenas com cerca de um metro de altura sai em torno de R$ 1.600.
“Restaurações são ‘caras’ aos olhos de muitas pessoas, ainda mais que o processo de laqueação (revestir com resina de origem vegetal) também é, sem dúvida, o mais oneroso das técnicas empregadas em pintura. Mas quando o cliente coloca em questão o custo-benefício e o apego familiar, se dá conta de que terá o móvel para o resto da vida”, pontua Wilka Moura, 41, proprietária do Ateliando, de São Bernardo.
A duração do mobiliário é só uma das vantagens apontadas pela restauradora. “Não se fabricam mais móveis como antigamente, o design também já não segue a mesma linha. A indústria moveleira foi abduzida pela família de compensados, MDFs e MDPs. Se pegarmos um guarda-roupa atual e desmontarmos duas vezes ele já não se monta novamente, sem contar que qualquer peça empena com dois anos de uso contínuo. Fato que não ocorre com móveis antigos, com sustentação, estrutura, madeiramento nobre, como imbuia e jacarandá”. Outro detalhe que valoriza e também chama muito a atenção é o próprio ofício do entalhador manual, cada dia mais raro.
 
APEGO
Praticamente todas as peças que passam pelas mãos dos restauradores têm histórias por trás. No Ateliando, o caso de amor coincidiu com o móvel mais antigo que esteve por lá. “Era uma cômoda caindo aos pedaços, de 1939, estilo Art Decôm, que já estava na família havia três gerações quando o rapaz resolveu dar vida nova e eternizar a lembrança. Primeiro ele veio até o Ateliando, fez questão de saber todo meu trajeto, meu conhecimento, perguntou como e onde eram realizados os serviços. Só depois de duas semanas apareceu com a peça e, humildemente, confessou a preocupação em dá-lo na mão de qualquer um. Disse que as três antigas donas daquele móvel não estavam mais entre nós e que a gente tivesse amor quando o manipulasse.”
No caso de Cunha, o apego – e uma boa parcela de culpa – foi dele mesmo com uma vitrola antiga que pertencia ao pai. “Quando era garoto e começou a moda do CD, meu pai disse que só me daria um quando a vitrola quebrasse. Pois fui lá e quebrei de propósito. Fiquei feliz por ganhar um novo e moderno, mas com grande peso na consciência porque, querendo ou não, a vitrola tinha história na nossa casa. Tempos depois, já restaurador, fui atrás e consegui uma idêntica à que tínhamos. Embrulhei e dei de presente para meu pai. Pergunta se ele gostou? Questionou por que tinha ido atrás daquela coisa velha. Mas  fiquei feliz de ter achado aquela CCE antiga”, lembra. Mesmo restaurando e deixando o móvel novo em folha, Cunha evita que a mobília perca a sua origem. “Pode ficar parecendo outra peça, totalmente transformada, mas se tiver etiqueta original da data de fabricação, vou isolar e respeitar essa história”, afirma o restaurador.
Ter sob seu cuidado peça que representa tanto emocionalmente quanto financeiramente para outra pessoa é uma responsabilidade e tanto. A artista plástica e proprietária do Beco do Restaurador, em São Caetano, Sonia Cramer, 55, passou por um apuro no começo de carreira. “Estava no ramo da restauração havia uns cinco anos e um amigo disse que iria me trazer uma mesinha especial, caríssima e que o dono queria que eu trocasse o verniz. Era linda, toda trabalhada e tinha que ter todo o cuidado para não machucá-la. Pesquisei e vi que era uma mesa chinesa, do século 18. Fiquei apavorada, nem consegui dormir. Quando comecei a trabalhar nela e tirei o verniz percebi que a madeira tinha pontinhos pretos, mas achei que fossem próprios do material mesmo. Mas não eram. Descobri que eram nanquim. Passei uma semana pintando pontinho por pontinho de volta. O dono gostou, mas não teve noção do que passei para fazer aquela entrega”, contou.

 




Diário do Grande ABC. Copyright © 1991- 2017. Todos os direitos reservados