Do outro lado do muro

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Miriam Gimenes

 A crise no sistema penitenciário brasileiro é uma realidade há anos. No último mês, no entanto, ela se tornou latente, principalmente depois do massacre em Manaus, onde uma briga entre facções rivais no Compaj (Complexo Penitenciário Anísio Jobim) resultou na morte de 56 detentos. Com roteiro que mostra realidade semelhante, o monólogo Cárcere será apresentado hoje, a partir das 20h, no Itaú Cultural. O texto é de Saulo Ribeiro e Vinícius Piedade – ator, diretor, iluminador do espetáculo.

Diante da dificuldade de se sustentar com a música, um pianista aceita o convite de amigo que lhe oferece bico de venda de drogas, aproveitando o fato de ele ter contato com tanta gente nos bares onde toca. Pego em flagrante, ele acaba preso. Na prisão, tenta negociar com a direção do presídio a entrada do seu instrumento para ensinar outros presos a tocar. Quando líderes de facções criminosas acham que essas conversas são caguetagem, o juram de morte.

Uma vez ameaçado, o pianista vai para a ‘Ala dos Seguros’, junto a outros presos que correm risco de vida. O problema é que quando há rebelião na cadeia, quem é candidato natural a refém é justamente quem está nessa ala. “Os presos pensam que quanto mais chocante, mais a sociedade pedirá resposta”. diz Vinícius.

E aí começa a peça, que se passa durante uma semana na vida deste pianista. Privado da liberdade e de seu piano, é refém em potencial de rebelião iminente. No cárcere, ele vive em contagem regressiva e suas expectativas são expressadas em um diário, iniciado em uma segunda-feira e encerrado quando estoura a rebelião, um domingo.

Segundo Vinícius, a ideia surgiu depois de percorrer alguns presídios do Espírito Santo apresentando o espetáculo solo Carta de um Pirata. O conflito retratado pelo personagem, embora atual, não é novidade no sistema prisional. “É temática que não é nova e no Brasil, com o tempo, se atualiza em função das barbáries. O problema é jogado para frente e, de vez em quando, vem e estoura. O interessante do espetáculo é que pego um personagem em meio a uma rebelião, o mesmo problema dos tantos que morreram.”

Trata-se de metáfora sobre a liberdade. “O paradoxo se dá nisso. Ao mesmo tempo que a gente fala sobre a vida do cárcere, coloco o público nessa situação, humanizando um pouco esse ser. Quem são os tantos que morreram? O que a peça faz é pegar um deles e contar a história desse cara, como é outro lado do muro. De alguma forma dando um RG para ele, mesmo que seja do cárcere.” A peça já foi apresentada em nove países nos últimos oito anos.

Cárcere – Itaú Cultural. Av. Paulista, 149. Hoje, às 20h. Entrada gratuita. Distribuição de ingressos: preferencial (duas horas antes, com direito a um acompanhante) e não preferencial (uma hora). Informações no 2168-1776.




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