Grafite e o poder de transformar vidas

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Miriam Gimenes

 Era fim da década de 1980 e dezenas de jovens se encontravam no Metrô São Bento, em São Paulo, para dançar break. Ali – e na Rua 24 de Maio – nasceu o movimento hip hop, que lançou diversos artistas, entre eles Thaíde, DJ Hum, Racionais MCs e Rappin Hood. Mas as ‘novidades’ não se restringiram apenas à esfera musical. Grafiteiros também surgiram deste movimento, entre eles Os Gêmeos e o mauaense Branco Peretti. “Nós somos amigos. Eles (Gustavo e Otávio) já vieram aqui na minha casa”, lembra o artista.

Peretti, 44 anos, nasceu em Mauá, morou por um tempo em Santo André e retornou à cidade. Começou a arriscar os primeiros desenhos na época do hip hop e desenvolveu, ao longo dos anos, sua arte, principalmente na região. Junto com a ‘crew’ Guerra das Cores, no início de carreira, fez diversos desenhos, entre eles o muro em comemoração ao aniversário da cidade, com a imagem de Tom Jobim, que já não existe mais. “Hoje vendo, executo, recebo, praticamente me doei para o (grafite) comercial. Os Gêmeos insistiram no grafite de rua e tiveram mais sorte, porque estavam em São Paulo e tiveram mais incentivo.” Segundo o grafiteiro, eles mantêm contato até hoje.

Muros de escolas, de açougue, de bar, restaurante, casas que sofreram pichação, tudo serve de ‘tela’ para seu trabalho, que pode ser visto em suas páginas do Facebook e Instagram. Por isso, não concorda com atitude do prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), que cobriu de cinza os grafites da Avenida 23 de Maio, que tinham inúmeros desenhos, inclusive de Os Gêmeos.

Peretti passou por algo semelhante, mas de forma isolada, em 2015, quando desenhou o comediante Danilo Gentili na Avenida Santos Dumont, em Santo André. “Pensei: ‘Quem é a figura da cidade hoje?’ Lembrei do Danilo, que estava na mídia, e fiz.”

Só que foi chamado para o Paço para uma reunião. “Disseram que o painel não tinha agradado a todos e queriam que apagasse.” Depois de argumentar ele teve de ceder e fez Albert Einstein por cima, o que gerou revolta do humorista desenhado. Danilo criticou duramente o então prefeito Carlos Grana (PT) pela atitude.

À época, a Prefeitura alegou que o artista responsável pelo desenho não participou do processo de seleção para o projeto e que o edital proibia a promoção de marca, pessoa, programa ou empresa. Este é um dos trabalhos pelas quais Peretti sente mais carinho.

E o mauaense só tem a agradecer à sua arte. “Perdi meu pai com 10 anos, fiquei atordoado. Se não fosse o grafite teria virado marginal. Grafite é minha vida. Faço isso porque me completa.” E carrega o sonho de passar para outras pessoas, por meio de oficinas, o que aprendeu nas ruas. “Quero ensinar para as crianças para que não virem pichadores amanhã”, finaliza.




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