Arte não tem endereço

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Miriam Gimenes

 “Todo homem saudável consegue ficar dois dias sem comer – sem a poesia, jamais.” Foi com a frase do francês Charles Baudelaire que o também poeta, agente cultural, músico e artesão Douglas Bunder, 54 anos, de São Caetano, justificou a atitude tomada há pouco na Avenida Paulista.

Ele, que expõe sua arte – poesias escritas em azulejos – na avenida mais famosa da Capital, foi interpelado por um morador de rua que pedia por uma folha de papel. “Ele me disse: ‘Tenho uma caneta e preciso de caderno para escrever uma poesia’. Eu tinha meu caderno pessoal, que estava começando a utilizar. Peguei e dei para ele”, lembra. Da experiência, escreveu uma poesia. “Adoro a rua, sou um artista dela, a rua me inspira. Gosto de andar de trem, de ônibus, conversar com as pessoas. Tudo pode ser transformado em arte.”

É por isso que Bunder, junto a outros artistas de São Caetano, pleiteia a aprovação da Lei do Artista de Rua, sugerida pelo Conselho de Cultura em parceria com agentes da cidade e enviada, no fim do ano passado pelo então prefeito Paulo Pinheiro (PMDB) para a Câmara. Ela está em tramitação nas comissões da Casa. Em Santo André, legislação semelhante foi sancionada em dezembro do ano passado.

Se aprovada a lei, entre outras determinações, permite manifestações culturais de artistas de rua em espaço público aberto (leia-se praças, parques, calçadões, vias e ruas de lazer). Ele poderá, também, receber, no período de exposição, doação espontânea do público e vender seus produtos como CDs, DVDs, livros, quadros e peças artesanais.

E o mais importante: as manifestações culturais independerão de prévia autorização dos órgãos públicos e não estarão sujeitas a cobrança de impostos. “Nosso grande problema hoje, não só aqui como em outros lugares, é a necessidade de buscar alvará para apresentar nosso trabalho. Como não existe legislação específica se alguém reclamar, por exemplo, do barulho, o que vai acontecer? A GCM (Guarda Civil Municipal) vai acabar dando razão para quem está reclamando. Com a lei aprovada, poderemos andar com ela no bolso”, diz Bunder.

Por enquanto, o único lugar que o poeta tem usado para expor seu trabalho é na Avenida Paulista, já que é um dos artesãos que têm autorização para isso por lá. Adepto à poesia concreta, transfere fragmentos dela para azulejos, que são comercializados por R$ 40.
Aproveita, também, para dividir gratuitamente seu trabalho no papel. “A gente que tem esse dom e que trabalha com arte tem a obrigação de distribuir o que produzimos. A pessoa que passa na rua talvez não tenha acesso (à Cultura). É por isso que a arte tem de estar na rua.” Não só os transeuntes, como também Baudelaire, de fato, agradecem.

>É artista ou conhece alguém que expõe seu trabalho nas ruas do Grande ABC? Nos conte (cultura@dgabc.com.br)




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