Maestro soberano é Antonio Brasileiro

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Miriam Gimenes

Pode parecer uma brincadeira do destino, mas o mais carioca dos cariocas, Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, o Tom (1927-1994), faz aniversário no mesmo dia que a cidade de São Paulo. Se fosse vivo, o maestro soberano, como cantou Chico Buarque, completaria 90 anos. E hoje, a partir das 20h, sua obra será lembrada no espetáculo literomusical Histórias de Canções – Tom Jobim, no Viradalata Espaço Capital (Rua Apinajés, 1.387), em São Paulo.

O show, que terá clássicos como Garota de Ipanema, Chega de Saudade, Águas de Março, entre outros, é baseado no livro homônimo de Wagner Homem (Ed. Leya), que entre uma música e outra – tocadas por banda sob a direção musical do pianista Mário Carvalho – conta com muito bom humor fatos importantes, histórias de bastidores e curiosidades sobre a vida e a obra de Tom.

A apresentação, cujo ingresso custa R$ 50 (R$ 25 meia-entrada), ainda conta com projeções de vídeos, fotos e áudios inéditos sobre momentos embrionários da criação de algumas músicas e outras histórias. Uma delas trata de Luisa, canção encomendada pela Rede Globo para a minissérie Brilhante (1981). “Tom escreveu a música pensando em Vera Fisher, com os cabelos loiros, esvoaçantes, ‘raio de sol’. A canção ficou maravilhosa. Quando a novela foi ao ar, Vera estava morena de cabelo encaracolado. Tom ficou doido com isso”, lembra Wagner, aos risos. Segundo o escritor, o músico tem público de todas as idades. “Há uma retomada em sua obra. A garotada está começando a se interessar por ele. Em shows que faço, metade da plateia é de gente jovem e isso é muito bom.” Se é.

SOBERANO

O escritor Ruy Castro, autor do livro Chega de Saudade, que reconstitui a vida boêmia e cultural carioca dos tempos da bossa nova, afirma que houve uma época em que Tom foi mais valorizado no Exterior do que aqui. “Durante muito tempo, nos anos 1960,1970 e 1980. Mas, a partir dos anos 1990, a coisa começou a mudar. Hoje o Tom é uma unanimidade até nacional.”

Tanto que vários já gravaram muitas de suas mais de 300 canções – algumas, em parcerias memoráveis com Vinicius de Moraes e Elis Regina. “A Universal mais a Warner e a Sony soltam por ano inúmeras reciclagens do material gravado por Tom. Some a isto aos incontáveis discos feitos anualmente por jazzistas e cantores, brasileiros e internacionais, interpretando Tom. Por incrível que pareça, até Chitãozinho e Xororó gravaram ano passado um disco inteiro com canções dele. E elas resistiram!”, comemora. Tom partiu em 1994, por complicações pós-operatórias para retirada de um câncer. Mantém-se vivo, no entanto, personificado em suas belas canções. A realidade é que sem ele a música popular brasileira não pode ser.

‘Tom era um dos poucos que tiravam meu avô de casa’, diz Stella Caymmi
De tempos em tempos, Tom Jobim ia à casa de Dorival Caymmi para convidá-lo para passear. Ficavam horas andando de carro pelas ruas do Rio, porque o carioca gostava de ouvir suas ideias filosóficas. “Só duas pessoas conseguiam tirar meu avô de casa: Tom Jobim e Jorge Amado”, diz a jornalista Stella Caymmi, autora do livro Dorival – O Mar e o Tempo e neta do baiano.

A relação dos dois, nas palavras de Dorival, era um ‘caso de amor.’ “Não me dou o direito de sentir saudades porque guardo a fantasia de que Tom não morreu”, disse em conversa com Stella. Ela conta, inclusive no livro, que, antes de viajar para se tratar em Nova York, Tom pediu a bênção do amigo – a quem tinha como um ‘pai’ – e, para se despedir, citou um trecho da canção praieira Promessa de Pescador, de Caymmi. “Tome conta de meu filho que eu também já fui do mar.”

Stella lembra que a morte dele foi um susto não só para Caymmi, que não teve coragem de ir ao velório, como para a família toda, pois eram muito próximos. “Foi amizade muito estreita, quase uma irmandade, apesar de diferença de geração, uma relação de amor impressionante”, analisa. E completa: “A parceria deles era tão grande, tão bonita, tão cheia de histórias que daria para eu escrever um livro disso.” Quem sabe?




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