Arte dentro da arte

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Marcela Munhoz

 Uma das experiências mais interessantes quando se anda nas ruas é olhar os detalhes. Faça o teste: encoste em algum canto e dedique alguns minutos para realmente ver o que está acontecendo ao redor. Quem estiver passando pela fervilhante Marechal Deodoro, Centro de São Bernardo, e topar o desafio vai notar, na altura do número 1.325, algo bem diferente da paisagem rotineira do local. Concorrendo com as promoções das vitrines, paredes pichadas e intenso movimento, uma solitária tela de pintura está grudada ao poste em frente à Câmara de Cultura Antonino Assumpção. Nela, um artista olha pela janela do prédio enquanto o desenha. Confuso? Não, é arte e tem nome: é a instalação Observador Número 2.

Os que puderem entrar na Câmara vão ter ideia melhor do que o artista Rodrigo Yudi Honda quis transmitir com a obra, que faz parte da exposição Observações, em cartaz até 31 de março, e que tem curadoria de João Delijaicov Filho e Thomaz Pacheco. “Faço relação com o imprevisível da calçada. A tela também passa pelas intempéries, como poluição e chuva, e está sujeita a ser pichada, modificada. É para levantar a reflexão sobre a quantidade de coisas que precisamos ver a todo momento e que, no fim, não enxergamos nada”, analisa o são-bernardense de 28 anos, formado em Arquitetura e Urbanismo. A mesma mostra já passeou pela Pinacoteca, quando foi feita a instalação Observador Número 1.

Embora não goste de dar única resposta quando questionado sobre o que o inspirou ao executar as obras, Honda dá pistas sobre Observações. “Pode ser convite à contemplação, a pensar sobre como nossa relação com as imagens hoje está descartável, rápida. A concorrência com a arte é enorme.” A tela na calçada está acompanhada por mais cinco obras, espalhadas nas paredes de duas salas do antigo casarão. Entre os materiais usados estão carvão, giz, lápis, tinta acrílica, esferográfica, pastel oleoso, grafite, guache, tinta a óleo, pastel seco e lápis de cor.

A Rainha traz 13 reproduções de uma abelha em papel pardo. A ideia é fazer a relação da mesma imagem em várias escalas. Ao lado, Honda ajeitou a obra Sem Estilo. Ousado, fez reconstrução de famosa pintura do pintor modernista Mondrian. “O que seria uma peça geometricamente perfeita foi amassada e transformada em outra. Um gesto humano trouxe o caos, o imprevisível”, comenta.

Logo na sala à frente, duas rosas enfeitam o espaço. Quem observar vai notar que uma é natural e outra, artificial. Desenhos das duas, feitos todos os dias durante um mês, estão expostos. “Só conseguimos observar realmente a natureza se nos propusermos a entrar no ritmo dela. A vida da flor natural é mais lenta, com mudanças muito sutis. Também tem um pouco do simbolismo da morte, que é uma certeza.”

Antes de terminar, o visitante dá de cara com um rosto, metade com a pele, metade com caveira. É o Intraretrato, uma versão do próprio artista dele mesmo. “Fiz uma brincadeira com a mortalidade, com o efêmero, e ainda com aquestão da igualdade. Por dentro somos idênticos”, finaliza.

Câmara de Cultura quer ser vista 
E não é apenas a exposição de Rodrigo Yudi Honda que chama a atenção na Marechal. O prédio da Câmara de Cultura Antonino Assumpção também se destaca. Se por um lado está com as paredes pichadas, por outro tem as portas abertas à população. Além das exposições, existe uma minisala de leitura ali. Só o prédio merece ser admirado também. Tombado em 1987, foi construído, provavelmente, em 1890, por José D’Angelo. Já foi ocupado pela 1ª Câmara Municipal do antigo Município de São Bernardo, que envolvia toda a região, onde, em 28 de setembro de 1892 tomaram posse os primeiros vereadores eleitos pelo povo. Serviu, ainda, como gabinete para vários prefeitos e, posteriormente, sediou a Casa dos Esportes.

O autor de Observações aproveita para agradecer a oportunidade de expor no espaço e pedir para a nova administração, comandada pelo prefeito Orlando Morando (PSDB), mais locais para artistas da região mostrarem seus trabalhos. Para ele, São Paulo acaba monopolizando a maioria das manifestações artísticas.

 

> Observações – Exposição. Até 31 de março. Câmara de Cultura Antonino Assumpção, em São Bernardo. Rua Marechal Deodoro, 1.325, Tel.: 4125-0054. Funciona das 9h às 12h, e das 13h às 17h30. Grátis. Mais informações: www.rodrigoyudihonda.com.

 




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