Era uma vez...

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Miriam Gimenes

 Na Teoria Literária, o leitor, ao lado do narrador e do autor compõem os três pilares de uma história. Este último tem como função criar universo paralelo, com personagens e eventos que formam a trama. Já o narrador aparece para ajudar o leitor a interpretar o enredo. Um, portanto, não existe sem o outro. Afinal, de que serviria escrever um livro se ninguém lesse? E, a fim de homenagear uma importante ponta deste deste ‘triângulo amoroso’, hoje é o Dia do Leitor.

Mas existem motivos para comemoração? Parece que sim. Segundo a última Pesquisa Retratos da Leitura feita pelo IPL (Instituto Pró-Livro), divulgada em maio do ano passado, o Brasil é constituído por 56% de leitores – que têm a partir de 5 anos (104,7 milhões de pessoas). Se comparada com o levantamento anterior, feito em 2011, houve crescimento de seis pontos percentuais, já que eram 50%. O índice de leitura, que era de quatro livros por ano, subiu para 4,96.

O número, no entanto, ainda é tímido. E como um time de futebol em que se investe na categoria de base para ganhar, lá na frente, mais títulos, especialistas acreditam que as crianças podem ser a chave para a mudança nas futuras pesquisas. “Um dos estudos que temos apontou que a adição de um dia extra por semana de leitura de pais para filhos durante 30 minutos, durante os primeiros dez anos de vida da criança, potencializa significativamente a capacidade de leitura dos pequenos”, diz Claudia Sintoni, especialista em mobilização social da Fundação Itaú Social.

Ela, que também gerencia o projeto Leia para Uma Criança, que distribuiu no ano passado 3,6 milhões de livros e promoveu diversas rodas de leitura pelo País, diz que criar uma rotina e vínculo afetivo com o hábito da leitura é uma ‘arma’ e tanto para formação de novos leitores. “Quando a criança faz esse processo acompanhada do adulto ela tem uma capacidade de se desenvolver muito mais. Se o pai não sabe ler, mas tem consciência da importância do hábito, pode usar ilustrações para criar a história e conversar com filhos por meio da imagem”, sugere.

Ela diz isso baseada em levantamento feito pela Fundação no ano passado, intitulado Impacto da Leitura Feita pelo Adulto para a Criança, na Primeira Infância, para o Desenvolvimento do Indivíduo que aponta também que a leitura está entre os fatores determinantes dos escores de inteligência, da motivação acadêmica e dos anos de escolaridade que o indivíduo terá em sua vida.

E não é só isso. Pesquisa feita pela Fundação Nacional de Leitura Infantil (National Children’s Reading Foundation), dos Estados Unidos, diz que, para a criança de zero a 5 anos, cada ano ouvindo historinhas e folheando livros equivale a US$ 50 mil a mais na sua futura renda. Fazendo trocadilho com a famosa expressão capitalista, leitura ‘is money’.

RODA DE LEITURA
E não só os pais podem fazer este tipo de contribuição/investimento para os pequenos. No Jardim Zaira 5, em Mauá, a pedagoga Vanessa Leite reúne, todos os sábados, 30 crianças carentes de 6 a 12 anos para participarem do projeto Leitura – A Certeza de Um Mundo Melhor, na Associação Casa do Senhor, presidida por ela.

Criada em fevereiro de 2013, a iniciativa objetiva auxiliar as crianças que estão na escola e que têm dificuldade de ler e escrever. “A ideia é que elas se apropriem da leitura e melhorem o rendimento escolar”, explica. Para tanto, são feitos jogos, oficinas com materiais recicláveis, orientação de estudos e a roda de leitura, que conta com um participante especial: o Livronildo.

Trata-se de um boneco dono de uma maleta que carrega cinco livros, de variados gêneros textuais (lendas, gibis, entre outros). Toda semana uma criança é sorteada e o leva para casa. “Assim, ela exercita o hábito e incentiva a família a participar. Para aqueles que o pai não sabe ler, digo para serem os narradores, e eles adoram.”

Por terem alguns traumas, essas crianças chegam à associação um tanto retraídas. “Por meio da leitura elas começam a se comunicar melhor aqui, na escola, em casa. A evolução é visível.” Não há dúvida. Como disse Voltaire, “a leitura engrandece a alma”.

 

‘Leia brasileiros’ incentiva o hábito
O estudante de Jornalismo Giovanni Arceno, 23 anos, de Joinville, não teve o incentivo em casa para ser um apaixonado pelos livros. A prática, no entanto, ganhou força em sua vida naturalmente, ainda na adolescência. “Talvez por eu gostar muito de filmes, uma coisa puxou a outra e quando fui ver tomei gosto por ler”, lembra.

Como trabalha em uma empresa que faz conteúdo para internet, uniu o útil ao agradável e criou há pouco mais de quatro meses o site Leia Brasileiros (www.leiabrasileiros.com.br). O projeto, que já tem 3.500 seguidores, permite assinatura gratuita, apenas fazendo um cadastro com o endereço de e-mail. Diariamente, será enviado o trecho de um livro da literatura nacional e curiosidades para ‘degustação’. “Tento dar uma democratizada no conteúdo, vou atrás de poesia, contos, vou pesquisando”, diz. Já foram contemplados textos de Angústia, de Graciliano Ramos,
Nada a Dizer, de Elvira Vigna, entre outros.

E o melhor, ressalta, é o retorno disso. “Recebo diversas respostas diariamente e algumas pessoas dizem que gostam tanto dos textos que vão comprar o livro para lerem por completo.” Uma vez a semente lançada, os frutos certamente nascerão.




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