'A vida não basta'

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Vanessa Soares <br>Do Diário do Grande ABC

A literatura brasileira chora a partida de mais um de seus gênios. O poeta maranhense Ferreira Gullar morreu na manhã de ontem, aos 86 anos, no Rio de Janeiro, onde estava internado há cerca de 20 dias em decorrência de problemas pulmonares.
O velório teve início por volta das 17h na Biblioteca Nacional, no Centro do Rio. Hoje, às 9h, será transportado para o prédio da ABL (Academia Brasileira de Letras), onde permanece até às 15h, horário previsto para o enterro no mausoléu da instituição, no Cemitério São João Batista. O poeta deixa dois filhos, Luciana e Paulo, oito netos, e a companheira, Cláudia, com quem vivia atualmente.
O escritor, poeta, ensaísta, crítico de arte, tradutor, biógrafo, entre tantas outras facetas que possuía como artista, é considerado um dos maiores autores brasileiros do século 20. Com carreira que teve início nos anos 1940, ao longo de seis décadas Gullar eternizou sua existência deixando uma extensa lista de obras importantes para a literatura brasileira.
“Com certeza, além do intelectual e pensador da poesia e da arte em geral que ele era, a própria poesia é seu maior legado. Sem sombra de dúvidas foi um dos maiores poetas do século 20. Se ele não tivesse produzido mais nada já ficaria marcado na história da literatura brasileira só pelo livro A Luta Corporal, escrito aos 23 anos de idade”, declarou a poetisa e escritora Dalila Teles Veras, da Livraria Alpharrabio, em Santo André.
Já para o presidente da Câmara Brasileira do Livro, Luis Antonio Torelli, Gullar marcou presença no mundo com grandes obras. “Sua trajetória de vida é refletida em sua obra, que nos toca profundamente. Para sempre essa obra viverá no coração e em livros que eternizam na impressão de suas palavras, os pensamentos de um dos maiores poetas brasileiros”, declarou em nota.

OBRA
José Ribamar Ferreira nasceu em 10 de setembro de 1930, em São Luís, no Maranhão. Filho do comerciante Newton Ferreira e da dona de casa Alzira Goulart, era o quarto de 11 filhos. Se descobriu poeta ainda criança, na década de 1930, ao ter contato com poesias como as de Gonçalves Dias, Olavo Bilac e Raimundo Correia.
Foi eleito ‘imortal’ pela ABL em 9 de outubro de 2014, sendo o sétimo ocupante da 37ª cadeira. Possuía uma vasta lista de premiações, entre as principais o Prêmio Jabuti de melhor livro de ficção em 2007, com Resmungos, e em 2011, com Em Alguma Parte Alguma; o Prêmio Camões – mais importante premiação literária da Comunidade de Países de Língua Portuguesa – pelo conjunto da obra, em 2010, ano em que também foi contemplado com o título de doutor honoris causa pela Faculdade de Letras da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), além de indicação como Nobel de Literatura em 2002.
No teatro, recebeu os prêmios Molière, Saci e Governador do Estado de São Paulo com Se Correr o Bicho Pega, se Ficar o Bicho Come</CF>, de 1966, entre tantas outras premiações nas diversas áreas em que atuava.
Publicou seu primeiro livro, Um Pouco Acima do Chão, em 1949. Em 1954, foi a vez de A Luta Corporal, obra que fez surgir a poesia concreta e como consequência o grupo neoconcreto, em 1959. Poema Sujo, longa obra de quase 100 páginas, é a sua mais conhecida. Foi escrito em 1976 durante o exílio em Buenos Aires e se tornou ícone da resistência à ditadura. Foi traduzido e publicado em diversas línguas e países.
Foi um dos fundadores do Teatro Opinião, onde, na companhia de Oduvaldo Vianna Filho, escreveu peças como A Saída? Onde Fica a Saída?. A convite de Dias Gomes, integrou a equipe de teledramaturgia da Rede Globo, tendo escrito roteiros para séries como Carga Pesada e para a novela Araponga.
Além disso, dividiu a autoria de diversas canções com artistas consagrados como Caetano Veloso, em Onde Andarás; Milton Nascimento, em Bela bela; e Fagner, em Borbulhas de Amor.
Seu último livro Autobiografia Poética e Outros Textos, foi lançado este ano. A obra traz entrevistas, artigos, depoimentos e um caderno de fotos que compõem um amplo painel da vida do poeta. 




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