Cuba em transe

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Soraia Abreu Pedrozo <BR> Do Diário do Grande ABC

Nos últimos meses, o mundo parece ter voltado os olhos para Cuba, ilha caribenha que se tornou palco de shows, como o do Rolling Stones, em março, e desfiles de moda internacionais, a exemplo do da Chanel, em maio. Ainda, recebeu em setembro do ano passado o Papa Francisco e, em março, o presidente norte-americano Barack Obama. O pontífice fez as vezes políticas e ajudou no processo de reaproximação entre Cuba e Estados Unidos, que estão em processo de retomada de suas relações bilaterais.

Desde 1962, a Terra do Tio Sam mantinha embargo ao país. Mas, com os avanços das conversas, em julho do ano passado foi reaberta a embaixada norte-americana em Havana, e as restrições recuaram. Passou a haver maior facilidade para viagens de negócios e transações econômicas, comerciais e financeiras entre pessoas e empresas de ambos os países. Desde o fim de 2013, inclusive, o governo autorizou a importação de carros, após mais de meio século de proibição.

Com a vitória de Donald Trump ao governo ianque, no entanto, não se sabe que rumo essa relação vai tomar. Nesta semana o republicano disse que se o governo de Raúl Castro não apresentar acordo melhor ao povo cubano, aos cubanos-americanos e aos Estados Unidos, ele vai rever o acordo com a ilha.

Fato é que com a morte de Fidel Castro (ocorrida no sábado, dia 26, aos 90 anos), presidente mais longevo da história cubana, após 49 anos no poder, o contato com outras culturas pode ser acelerado – que deve antecipar também os planos de quem deseja um dia conhecer a ilha, que provavelmente nunca mais será a mesma com processo de transformação que experimentará nos próximos anos. Fidel, aliás, era assunto tabu sobre os qual muitos temiam falar em alto e bom tom, mas que dividia opiniões proferidas em voz baixa e frases curtas. Afinal, a desaprovação do governo é severamente punida até os dias atuais. Em sua trajetória no comando do país, Fidel mandou fuzilar milhares de cubanos e aprisionou outros tantos, apenas por discordarem. A repressão e perda de liberdade são o alto preço a se pagar pelos avanços na educação e na saúde.

A história começou a mudar quando a cortina de ferro se abriu, com a queda do Muro de Berlim, em 1989. Foi quando a possibilidade de trabalhar em fábricas soviéticas – e a conseqüente renda extra para promover melhorias nos imóveis e adquirir automóveis -, além dos aportes oriundos de negócios subsidiados com a União Soviética, foram suspensos. Até então, muitos cubanos faziam intercâmbio em faculdades de outros países; era a chance que tinham de conhecer uma realidade bem distinta da sua. Com esse racha na história, os professores mais antigos foram realocados pelo governo para trabalharem com turismo, e os estudantes assumiram seus postos nas salas de aula.

Uma guia, que inclusive aprendeu a falar português durante suas andanças mundo afora, lembra com saudosismo sobre o tempo em que podia sair de seu país. E lamenta ter sido forçada a abandonar a academia. Hoje, no entanto, leva aos turistas todo o seu conhecimento. Ela vive dividida, pois seu filho fugiu para os Estados Unidos e, pelo fato de ter se casado com uma norte-americana, pode ir e vir ao país. Mas sua mãe, idosa e doente, depende dela. Além disso, ela afirma que quer continuar em Cuba, mas que sonha com a liberdade de expressão e de escolhas.

Enquanto muitos nativos têm o desejo de sair da ilha, sonho mesmo é a vida que levam, num universo meio que paralelo, mas que preserva valores que a sociedade há muito tempo perdeu.

LADO POSITIVO

O contraponto dessa história está exatamente nos índices de educação e qualidade de vida. Os cubanos são, em sua maioria, muito mais instruídos, articulados e educados do que os brasileiros. E, até o momento, não foram contaminados pela violência. E mantêm seus valores. Dos 11,1 milhões de cubanos, 99,8% sabem ler e escrever (dos 205 milhões no Brasil, a taxa é de 92,6%) e 93,2% têm acesso a instalações de saneamento (em território nacional, 82,8%). A expectativa de vida é de 78,7 anos (enquanto que no País é de 73,8 anos) e o sistema de saúde é universal (aqui não dispensa comentários). A taxa de desemprego é de 2,4% (conta quase 12% da nossa) e o IDH (Índice de desenvolvimento Humano) é de 0,769, considerado elevado e maior que no Brasil, de 0,75. Hoje, a maior moeda de troca cubana nas relações exteriores é a excelência de seus médicos, que são enviados para diversos países, inclusive o Brasil.

Os cubanos, a propósito, são atração à parte. Extremamente simpáticos, alegres e cultos, o que impressiona, e muito. Em um simples bate-papo, ao qual parecem estar sempre dispostos, dá para ficar de queixo caído ao absorver tanto conhecimento sobre as marcas do país socialista.

É durante o dedo de prosa também que percebemos o quanto eles adoram os brasileiros, nossos produtos de beleza (embora eles tenham tradicional indústria chamada Suchel Camacho, com itens básicos e baratos) e nossas novelas – mesmo que com certo delay de algumas décadas (que hoje é de apenas alguns anos). Quando a Escrava Isaura estava no ar, o país parava para assistir. Diariamente. Às 20h30. Eles adoram a Regina Duarte. A Maitê Proença. E o Fábio Júnior, que aliás era tido como um galã por conta de Roque Santeiro. É gostoso contar sobre algumas fofocas dos artistas, e atualizá-los quem casou com quem ou se separou.

Ao cubanos que ficam, como a maioria é dona de suas casas, que passam de pai para filho e servem de moradia para gerações inteiras de famílias, os imóveis são forma de incrementar a renda média de US$ 20 dólares mensais (R$ 70). Pelo fato de muitas dessas residências são espaçosas, é comum locar quartos aos turistas e oferece experiência única de vivenciar o dia a dia local.

Com as mudanças em andamento em Cuba, porém, provavelmente nada será como antes. E uma das frases mais célebres de Fidel, proferida em 1953, aos 23 anos, parece estar prestes a se concretizar: “Condene-me, não importa. A história me absolverá”.

 




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