Resistir e vencer

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Marcela Munhoz

 “Este momento já seria totalmente incrível para mim, mas algo que este livro também traz à tona é a concepção de que o pessoal está sempre marcado pela política. Por isso, não posso vir aqui e, simplesmente, fazer discurso costumeiro. Quero registrar menção de repúdio, dizer o quanto este ano feriu politicamente. Talvez, o que se premia aqui não é só meu livro, mas também – algo que me dá alegria – é o sentido exato do termo resistência, da ruptura da ordem democrática do Brasil. Nós, escritores jovens, não vamos desistir da luta. Em outras palavras, fora Temer.” Foi com esse discurso que o romancista Julián Fuks, 35 anos, arrancou aplausos durante a premiação de A Resistência (Companhia das Letras). O livro, de 2015, foi escolhido na categoria ficção da 58ª edição do Prêmio Jabuti de Literatura. Em não ficção ganharam Eduardo Jardim por Mario de Andrade: Eu Sou Trezentos: Vida e Obra e a dupla Nei Lopes e Luiz Antonio Simas por Dicionário da História Social do Samba.


“Não podia perder a oportunidade de estar em evento com seu grau de oficialidade e não fazer declaração política, no contexto que vivemos hoje, como se não tivesse acontecido nada este ano”, explica ao Diário, o paulistano, ainda incrédulo com tamanha honra, mesmo tendo sido considerado pela revista Granta um dos 20 melhores jovens escritores brasileiros e ser doutor em Literatura pela Universidade de São Paulo. “Não imaginava que ia ganhar tanta repercussão. O que me surpreendeu mais, desde o início, foi a atenção dos leitores. Alcançou mais gente do que as obras anteriores”, analisa.

A Resistência trata de uma família – no caso, a dele mesmo –, que passa por processo de adoção na Argentina em meio à perseguição da ditadura militar e foge para o Brasil, tentando se estabelecer na nova Nação. Para o autor, o hibridismo, a questão de saber se é ou não sua própria história causa curiosidade, atiça uma tensão. “Atraiu a compreensão de que este livro não é apenas ficção, mas rememoração histórica de período repressivo. Eles consideraram que pudesse ter muito a dizer. Antigamente, não podia questionar o autor sobre nada disso.” Além disso, segundo Fuks, aconteceu identificação ideológica. “Se aproximam pela indagação sobre o tipo de resistência do nosso tempo, que já não é a mesma dos militantes, não é a mesma da luta armada. Formulo as perguntas, ajudo a refletir, mas também não tenho as respostas.”

Mais do que a trama, Fuks se destaca por estar sempre reinventando, de alguma forma, o próprio escrever. “Não costumo apreciar livros do passado, narrativas semelhantes, com início, meio e fim. Não que traga ao papel uma novidade absoluta. Faço parte de tendência contemporânea, de reconstrução de um passado, de uma segunda geração com traumas históricos”, explica o autor, que já mergulhou fundo em seu mais novo trabalho: A Ocupação, ainda sem data de lançamento. “Migrei para o Brasil, finalmente. O livro tem relação com A Resistência, com o mesmo narrador, mas vem para São Paulo, com uma ocupação no Centro. E traz a ideia totalmente contemporânea de ocupar e resistir”, finaliza.




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