Cidade do Cabo é surreal

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Soraia Abreu Pedrozo

 O dito popular prega que a primeira impressão é a que fica. No caso da Cidade do Cabo (Cape Town), a mais charmosa da África do Sul, a primeira impressão do turista é a de disparar sucessivos “uau” e de segurar o queixo, que cai a todo momento. E depois, a coisa só melhora, tanto que antes de ir embora, já dá vontade de voltar. Diferentemente de qualquer lugar que já tenha conhecido, posso arriscar a dizer que se trata de destino único. A cadeia rochosa que permeia a cidade e abriga a indescritível Montanha da Mesa (Table Mountain), com cerca de 1.000 metros de altitude e 3 km de extensão, e de onde se tem vista da cidade toda, incluindo o Estádio da Cidade do Cabo – construído para a Copa do Mundo de 2010 – , e até a Ilha Robben (Robben Island) – onde Nelson Mandela ficou preso –, é digna de aplausos. Não é por menos que essa obra espetacular da natureza é considerada uma das Sete Maravilhas do Mundo moderno. O local chega a receber, por dia, 30 mil visitantes (volume total de brasileiros que visitaram o país em 2015).

Para subir, é possível ir de bondinho ou se aventurar pelas trilhas, o que pode levar de uma a quatro horas, conforme a condição física de cada um. Antes, porém, é válido checar no site (www.tablemountain.net) se a atração está aberta e qual a sua condição climática, pois não raro o local é fechado devido aos ventos fortes e à má (ou zero) visibilidade. Como a Cidade do Cabo é conhecida por fazer as quatro estações num mesmo dia, ao verificar que o tempo está bom, não titubeie. E leve um bom agasalho consigo, pois mesmo na primavera pode fazer um frio tão surreal quanto a vista que a montanha proporciona. Uma vez lá em cima, a sensação que dá é que literalmente abraçamos as nuvens.

De volta ao solo, a cidade é pura poesia. Uma trilha sonora a la novela do Manoel Carlos, com bossa nova de Tom Jobim cantando sua clássica Wave, não sai da mente, principalmente ao colocar os pés na praia de Camps Bay. Estou para ver um lugar tão lindo, que mesmo num dia nublado, é encantador. A formação rochosa chamada de os 12 apóstolos (Twelve Apostles), em referência aos discípulos de Jesus Cristo, ‘beija’ o mar de cor verde água formando paisagem inesquecível. Nos dias quentes, mesmo com a areia lotada de gente, poucos se arriscam a nadar, pelo fato de as águas serem um tanto gélidas mesmo no verão e pelo risco de aparecerem tubarões. Atrás dessa montanha fica a única praia nudista sul-africana.

A Cidade do Cabo guarda algumas similaridades com o nosso Rio de Janeiro, e não à toa, já que há 200 milhões de anos havia um único continente, a Pangeia, que posteriormente se fragmentou em dois e, em uma das metades, estavam África e América do Sul, encaixadinhas, cuja separação decorreu do movimento constante das placas tectônicas. Foi quando as duas cidades ‘irmãs’ se separaram.

A diferença (enorme, diga-se de passagem) fica por conta do charme extra conferido pelos holandeses, que fundaram o local (tanto que quase a metade dos residentes fala africâner em casa, dialeto oriundo da colonização) e da ocupação desses lugares, que se deu de forma desordenada no município carioca, onde a população menos abastada subiu o morro. Enquanto que no sul-africano, as cadeias rochosas permaneceram intactas, apenas para emoldurar o cenário. Podem ter contribuído também fatos como, apesar de a Cidade do Cabo ter o dobro do tamanho do Rio de Janeiro, 2.455 km² contra 1.255 km², sua população de cerca de 3,7 milhões de habitantes (mesmo sendo a segunda cidade mais populosa da África do Sul) equivaler a pouco mais que a metade da do Rio, com 6,4 milhões de pessoas. Durante o Apartheid, os moradores foram forçados a deixar suas casas na cidade praiana e se transferir para as townships (espécie de favelas) nas áreas periféricas. E, embora o governo tenha programa para diminuir os problemas raciais, negros e mestiços ainda moram mais afastados. Hoje, o local abriga um dos metros quadrados mais caros do país e é endereço de veraneio de ricos e famosos.

REVITALIZADO
Outro lugar extremamente agradável é o V&A (Victoria e Alfred) Waterfront, região portuária que foi revitalizada para receber a Copa do Mundo de 2010. O píer, que tem um quê de Porto Madero, em Buenos Aires, só que bem mais completo, é considerado o coração do turismo da cidade por reunir museus (como do diamante e do rúgbi), aquário, shopping, restaurantes, supermercado e um boulevard com parquinhos para as crianças e roda gigante, que oferece vista única da Montanha da Mesa e até da Ilha Robben. Aliás, dali é possível tomar um barco para conhecer o local, que tem como guia ex-prisioneiros.

A cidade, a propósito, foi palco do primeiro discurso de Mandela, após 27 anos recluso (dos quais 18 na Ilha Robben). Em 11 de fevereiro de 1990, ao ser libertado, ele disse: “Eu estou aqui diante de vocês, não como um profeta, mas como um humilde servo de vocês, do povo. Seus sacrifícios incansáveis e heróicos tornaram possível para que estivesse aqui hoje. Por isso, coloco os restantes anos da minha vida em suas mãos.”

Destino tem opções que surpreendem a todo momento
Seguindo o rastro da impressionante cadeia rochosa da Cidade do Cabo, tem-se uma baía pertinho dali chamada Hout Bay (que na época da segregação racial era conhecida por República de Hout Bay), que parece uma pintura com seus barquinhos e mar repleto de focas, que nadam para lá e para cá como se não houvesse amanhã. Ali o mar é mais calmo e tem temperatura em torno de 3°C mais quente, o que acaba atraindo muitas famílias. O local é interessante ponto de parada para um café e compras rumo ao Cabo da Boa Esperança (Cape of Good Hope).

Saindo dali, tem-se uma das mais belas vistas do mundo, sem dúvida, e que surpreende até os mais céticos. A estrada cenográfica de Chapman’s Peak está a 800 metros acima do nível do mar e é absurdamente estreita, o que dá um frio na barriga e certo receio de cair do penhasco, mas, ao mesmo tempo, hipnotiza com a vista panorâmica singular ao longo dos seus 9 km que contorna o pico, que dá o nome à via. Um dos cenários no meio do trajeto é a Long Beach, que atrai surfistas e endinheirados para tomar sol ao longo de sua extensa faixa de areia.

Após cerca de uma hora do Centro da Cidade do Cabo, chega-se a destino que todos estudamos nas aulas de História, e que figura no imaginário infantil a partir dos livros de aventura: Cabo da Boa Esperança, originalmente Cabo das Tormentas. Trata-se do ponto mais ao Sudoeste do continente africano e importante rota marítima descoberta pelo navegador português Bartolomeu Dias em 1498. Dez anos depois, Vasco da Gama dobrou pela primeira vez o cabo, e chegou às Índias. Com isso, Portugal ampliou consideravelmente seus lucros, já que não tinha mais de passar pelo Mar Mediterrâneo, dominado pela Itália. Apesar da força das ondas e da má fama de destruidor de caravelas, o cabo teve seu nome modificado por seu novo significado. Antigamente acreditava-se que ali estava a ponta do continente, e onde os oceanos Altântico e Índico se fundiam, mas esse ponto cabe ao Cabo das Agulhas.

De natureza exuberante, o local é literalmente onde o vento faz a curva, mas oferece paisagem deslumbrante, que transmite muita paz – eventualmente interrompida pelos habitantes locais, os babuínos, em busca de comida. No trajeto de volta, parada obrigatória é o reduto de outros animais, os pinguins africanos. Que, diferentemente dos macacos, que circulam livremente, as aves ficam em área cercada, o que não as impede de pular a cerca. A orientação é que não se toque neles, por mais tentador que isso pareça, pois, caso isso ocorra, eles podem não mais serem identificados pelo grupo, o que ocorre pelo (forte) cheiro característico deles – e com o contato humano esse odor pode se misturar ao nosso. A Boulders Beach é uma praia que parece parque de diversões dos pinguins que, fotogênicos, fazem a alegria do turista com fotos que transbordam fofura. Some isso ao cenário, com suas belíssimas montanhas ao fundo, e tenha uma vista ímpar.

BÔNUS
Como se não bastassem as surpresas em série que o destino proporciona ao visitante, ao pé da cadeia rochosa da Cidade do Cabo há dezenas de vinícolas. Ao todo, a África do Sul disponibiliza 7.000 rótulos de vinhos (é o oitavo maior produtor do mundo), que não devem em nada aos franceses, italianos, argentinos e chilenos. Sua localização favoreceu a criação de um novo tipo de uva, chamada pinotage, oriunda da fusão entre os tipos pinot noir e cinsault ou hermitage, que dá origem a um vinho tinto único, apreciado especialmente na Suécia.

Quanto aos brancos, vale a pena experimentar o chenin blanc, um dos melhores produzidos por uva originária do Vale do Loire fora da França. A África do Sul é o paraíso dos vinhos, e há garrafas para todos os gostos e bolsos, e boas safras por preços entre 150 a 300 rands (R$ 41 a R$ 83). Tin tin!

GUIA DE VIAGEM
COMO IR
A Latam Airlines Brasil tem passagens aéreas em voo direto, de oito horas, de São Paulo a Joanesburgo, por R$ 1.405,86 (ida e volta), na econômica, e por R$ 6.262,20 na Premium Business. Valores cotados em 25 de outubro, com câmbio a R$ 3,13, para embarque em novembro e dezembro (www.latam.com/pt_br_).

A companhia começou a operar para o destino em outubro, figura como única empresa latino-americana a conectar sua região a um país do continente africano. “Queremos democratizar o destino e levar 50 mil passageiros por ano em três voos semanais”, afirma Marcelo Franco, diretor de comunicação e marca Latam. A partir do mês que vem, há saídas diárias às segundas, quintas e sábados.

Outra operadora, que inclusive é parceira da Latam para conduzir passageiros até a Cidade do Cabo e outras cidades na África do Sul, é a South African Airways (www.flysaa.com/pt). Traslados internos podem ser contratados com a Kobo Safaris (www.kobo-safaris.com).

Pacote da Latam de oito noites e sete inclui passagem aérea, hospedagem em Joanesburgo, na região do Kruger Parque e na Cidade do Cabo, visitas a Mpumalanga e Pretória, entrada para o Kruger Park e safári em veículo 4x4, além dos traslados. Saída no dia 10 de novembro. A partir de R$ 4.273,95 à vista ou em 10x R$ 427,40.

ONDE FICAR
A África do Sul possui ampla rede hoteleira, que varia desde hospedagens mais simples até hotelaria de luxo. Para se ter ideia do quanto os valores podem variar. na região do Kruger Park é possível conseguir hotel no estilo resort desde US$ 100 a diária até lodges dentro do parque nacional a partir de US$ 600.
Em Joanesburgo, é interessante ficar nos bairros de Sandton e Rosebank – ou Maboneng, que foi revitalizado e hoje é point de pessoal descolado. O Indaba Hotel (www.indabahotel.co.za) é um resort urbano com comida honesta.

Na região do Kruger, quem busca hospedagem mais barata pode ficar em Hazeview. Porta de entrada pra Rota Panorâmica também. Mas se quiser gastar um pouco mais, as reservas privadas dentro do parque valem a pena. Em White River tem-se o resort Greenway Woods, com amplo espaço verde e comida igualmente honesta (<CF154>aha.co.za/greenway).

Na Cidade do Cabo, ficar hospedado da região do Waterfront é bom porque tem muitas atrações próximas. No entanto, há boas opções nos bairros de Green Point, Sea Point e Gardens. No Centro, há o ótimo Hollow on the Square (hotel-rn.com/hw/a174482/index.htm?lb</CW>l=ggl).

DICAS ÚTEIS
A tomada utilizada no País é diferente de qualquer outra, com três pinos. Tanto que o adaptador universal não possui entrada para ela e nos hotéis o número de adaptadores locais é limitado. A dica é comprar um desses chegando em Joanesburgo, no próprio aeroporto, por preço em torno de R$ 15.

A vacina de febre amarela, obrigatória para entrar no país, deve vir acompanhada do certificado internacional de vacinação, e nem todos os postos de saúde emitem esse documento. No Grande ABC, o Atende Fácil oferece, gratuitamente, o certificado. Para verificar outros endereços, basta acessar o link (www.anvisa.gov.br/hotsite/viajante/centros.pdf).

FUSO HORÁRIO
Na África do Sul são cinco horas para frente do nosso. No horário de verão, a diferença cai para quatro horas.




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