Aventure-se pelo solo sagrado dos Big Five

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Soraia Abreu Pedrozo

 O que, a princípio, para quem não sabe o que esperar do safári – já que pode ser passeio muito longo e cansativo, com duas saídas, uma bem cedinho e outra no fim da tarde –, torna-se algo viciante e experiência ímpar, na expectativa de conseguir dar de cara com algum animal, com doses de adrenalina maiores do que em parque com montanhas-russas de última geração.

Sempre quis fazer um safári. No meu imaginário, tratava-se de experiência que todo mundo tinha de passar pelo menos uma vez na vida. Mas, ao mesmo tempo, não sabia como seria. Que roupa vestir para não chamar atenção dos animais? Será que a câmera fotográfica daria conta de fotos boas mesmo para alguém que, assim como eu, é fotógrafa amadora? Será que faria um calor de derreter, mesmo estando um tempo mais fresco? E haveria muitos insetos? Ao mesmo tempo, batia sensação, lá no fundo, de risco, ao lembrar do que tanta gente falou antes do embarque para a África do Sul: ‘Tome cuidado!’, ‘Será que o elefante pode tombar o jipe?’, ‘E se aparecer um hipopótamo?’, ‘E se o Leão atacar?’, ‘Você não tem medo?’

Diante de tanta ansiedade, e com o cérebro funcionando a mil por hora, o tão esperado dia foi precedido por breve noite, na qual consegui dormir por apenas três horas e meia. Já que teria de levantar às 4h30 e sair às 5h (o café da manhã seria um lanche para viagem). Isso porque às 6h já começaria a aventura. É cedinho e no fim da tarde, com temperaturas mais amenas, que os animais costumam circular em busca de água e alimentos, então as chances de vê-los cresce consideravelmente. Coloquei roupas de cores básicas e não passei perfume – apenas repelente e protetor solar. Por precaução, levei um lenço para o pescoço e uma blusa mais grossa. Fazia muito frio, embora fosse primavera, e o jipe é coberto, mas aberto nas laterais. Mal subi no veículo e já me paramentei toda, pois o vento era muito gelado, e o lenço foi parar na cabeça. No 4x4 cabem nove pessoas, sendo os bancos de trás mais altos que os da frente, a fim de facilitar a visualização dos bichos.

Fomos então ao Kruger National Park, simplesmente a maior reserva sul-africana, que tem 19,4 mil km² de extensão, quase o mesmo que o País de Gales (20,7 mil km²) ou o Estado de Sergipe (21,5 mil km²). Esqueça tudo o que já vivenciou em um zoológico ou mesmo no Simba Safári, hoje Zoo Safari, em que é possível alimentar alguns animais na boca, como avestruz e pequenos veados, mas que tem leões, tigres e hipopótamos cercados atrás das grades. Esse pode ser um aperitivo do que está por vir ao fazer um safári na savana sul-africana (semelhante ao cerrado brasileiro, típico das regiões centrais do País), onde a interação com os bichos não vai passar da observação e de uma grande (põe grande nisso) dose de emoção.

Logo no início da ‘brincadeira’, somos avisados de que não há garantia de que qualquer animal apareça, menos ainda um dos Big Five (elefante, leão, rinoceronte, leopardo e búfalo), chamados assim por serem os cinco mamíferos selvagens mais difíceis de serem caçados. Isso porque eles estão livres, em seu habitat natural, sem a interferência do homem – tanto é que, se um deles machucar a pata, por exemplo, a ordem é que ele fique assim. Com cada qual no seu canto, tudo transcorre bem. Os animais, inclusive, parecem não se incomodar com os veículos 4x4 nem com as milhares de câmeras disputando o melhor clique deles.

O dia fazendo game-drive, como são chamados os safáris, ao contrário do que imaginava no início, passou muito rápido. E deixou gosto enorme de quero mais. Isso porque não vimos um, mas cinco leopardos, sendo que o normal, de acordo com os rangers (são os guias e motoristas do jipe e andam armados), é de dois no mês. Apenas não vimos leões, infelizmente. Para compensar, um dos leopardos estava tranquilo, deitado, vendo a vida passar, quando nos aproximamos. Ele bocejou, levantou e caminhou calmamente para o outro lado da estrada, como estivesse desfilando. Outro, estava em pleno ataque, porém, como hordas de turistas em seus carros particulares congestionaram o local em que isso acontecia, o animal ficou irritado e abandonou uma grande impala (espécie de veado), que poderia levar para uma árvore e degustar calmamente, por dias. E como ninguém pode descer do carro, nem para dispersar os visitantes, essa invasão ao mundo animal aconteceu de forma descontrolada. O que dá certa tristeza, devido à falta de bom-senso.

Regra expressa, aliás, é não descer do carro, apenas o ranger tem esse direito – e corre esse risco, já que os bichos estão livres. No caminho, avistamos uma latinha de alumínio que jogaram no mato, bem seco, pura irresponsabilidade e falta de educação de algum visitante. Se ela ficasse exposta por muito tempo ao sol, o reflexo dos raios poderia iniciar um incêndio sem precedentes, mas o ranger a recolheu.

Natural da Savana

Durante o safári no Kruger, fomos brindados por algumas manadas de elefantes no decorrer do passeio. Tomando banho, atravessando a estrada, derrapando no barranco. Com seus filhotes, muitos deles. O festival de ‘fofura’ selvagem gera uma vontade enorme de descer e abraçá-los – mesmo sabendo que não podemos. Eles são lindos e imponentes. E incrivelmente silenciosos, apesar de pesarem, em média, seis toneladas. Do alto de seus até quatro metros de altura e sete metros de comprimento, eles parecem ser os verdadeiros reis da selva. E se alimentam de marula, frutinha azeda típica do país e que dá origem ao licor de Amarula.

As zebras compõem paisagem onírica. Parecem ter saído de um sonho em que correm soltas e lindas com suas listras personalizadas – nenhuma é igual a outra, embora, a olho nu, não percebamos isso. E as girafas são seres muito simpáticos, que do alto de seus até seis metros de altura parecem posar às câmeras e sorrir às fotos. Comem tranquilamente as folhas nos altos das esparsas árvores com suas línguas que chegam a 45 centímetros. Há, ainda, os kudus (antílopes africanos), figuras carimbadas durante o safári. São um charme só com seus chifres enormes e retorcidos. Outro bichinho presente por toda parte é a impala, que anda toda saltitante e parece-se com o Bambi, mas sem as pintinhas brancas, e é presa fácil na savana.

Quando avistamos um lago, a guia avisou que logo atrás dele o parque nacional já fazia fronteira com Moçambique, e que não iríamos nos aproximar muito porque o local era habitat de hipopótamos. Com o zoom da câmera ou com binóculo era possível enxergar apenas os dóceis olhinhos para fora da água daquela terrível criatura que estava apenas de ‘butuca’. O risco de invadir sua área é de o bicho se sentir incomodado e atacar gratuitamente. Ele e o búfalo são os dois únicos animais que possuem esse instinto predador que mata por nada. Embora pese uma tonelada e meia, em média, o hipopótamo pode correr até 45 km/h. É possível, portanto, que nem o velocista jamaicano Usain Bolt, o homem mais rápido do mundo, capaz de atingir essa velocidade, consiga escapar. Ou seja, esqueça a fama de bicho bonachão e bonzinho, amplamente representado no universo infantil, inclusive, de saia de balé, como a Gloria na animação Madagascar, ou na versão de Hallie, assistente da Doutora Brinquedos.

RISCO DE EXTINÇÃO

Mais difícil de serem encontrados foram os rinocerontes, espécie ameaçada de extinção por ser presa de quadrilhas de caçadores que burlam as leis e os abate, normalmente à noite, quando o Kruger está fechado, em busca de seu chifre, vendido mais caro do que ouro. No mercado negro, o valor do quilo pode superar US$ 65 mil. E um chifre pesa, em média, seis quilos. Ou seja, cada animal pode rende quase US$ 400 mil aos traficantes. Tudo porque, nos países asiáticos, como China, Vietnã, Laos e Tailândia, acredita-se que seu pó pode combater a impotência sexual e curar o câncer. E mesmo com a proibição da venda dos chifres de rinocerontes desde 1977, esse segmento não para de crescer devido à demanda latente, mesmo diante de preços exorbitantes.




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