Perdi para os pokémons!

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Suzana von Bergmann

O planeta Terra está cada vez mais doido. Não tem jeito. Está completamente desalinhado. Dê uma olhadinha no horóscopo. Júpiter se alinha com Marte, Mércurio vai cruzar com Netuno na décima casa (devem cruzar no sofá da sala dessa décima casa). A Terra não cruza com ninguém, não se alinha com nada. Devemos estar fora do Sistema Solar há décadas e ninguém fala nada. Não só estamos no fundo do poço. Devemos estar no fundo do buraco negro.

Entrei no site da Nasa para tentar esclarecer minhas dúvidas. Fui no Fale Conosco. Lá tinham as abinhas Sugestões, Reclamações, Abduções e Estágio em Marte. Cliquei em Reclamações. Passei quatro dias só preenchendo o formulário. Nome, RG, título. Aí começou: Qual sua opinião sobre o penteado de Donald Trump? Onde estava em 11 de setembro? Faça um resumo interpretativo do fim de Lost.

Depois de 40 páginas preenchidas, veio aquele campinho com a imagem de letras embaralhadas para digitar. Ao lado, os dizeres. “Eu não sou um robô”. Pombas! Passei até o resultado do meu intravaginal, com foto e tudo, e eles perguntam se sou um robô! Tudo bem. Preenchi e dei ok. “Documento sendo impresso”. Mas como? Eu não tenho impressora. Algo de outro mundo acontecia. “Impressora Ink Sei Lá das Quan­tas em processo...”

Ao fim do tal processo, veio o número de protocolo e um endereço para buscar as cópias. Uma rua em Rio Grande da Serra. Era realmente coisa de outro mundo. Mas fui lá. De repente, o futuro do mundo estivesse em minhas mãos e talvez em Rio Grande da Serra! Um homem de uns 40 anos, atlético, pouco grisalho me entregou as folhas. Nem precisa dizer que me apaixonei. Nem precisa falar que joguei toda minha languidez para cima dele. Nem precisa dizer que me ferrei.

“Não podemos”, disse ele. “Estou me purificando para o grande momento. Em cinco meses, estarei no programa de colonização de Júpiter. Lá mudarei de sexo e ajudarei a povo­ar o planeta com muitos pokémons.” Corri o mais que pude, peguei o trem, comi dois chocolates de R$ 1. Passei mal, desmaiei. Acordei em casa três meses depois, rodeada de muitos pacotes e caixas cujo remetente era Nasa (Nós Atendemos Seus mais Ardorosos e Impossíveis Anseios) e a voz da Zezé, minha faxineira: “Óia, Dona Ingrid, tudo isso de boleto venceu ontem. Eu já limpei tudo, mas o seu computador tá cheio de bichinho.”




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