Mia Couto lança livro na Capital em meio à poesia e à prosa

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Vitória Rocha <br> Especial para o Diário

 “Mais do que a própria poesia”. O autor moçambicano Mia Couto poderia estar falando de si mesmo, contudo descrevia sua maior inspiração no mundo literário: seu pai. Em evento de comemoração aos 30 anos da editora Companhia das Letras, na quarta-feira, em São Paulo, o escritor conversou com seu pupilo, o brasileiro Julián Fuks, e teve seus textos ilustrados pelas canções de Fabiana Cozza e Lenna Bahule. A magia e os versos foram os elementos principais das falas de Mia Couto que, com palavras simples e frases inspiradoras, captou a atenção de 500 espectadores no Sesc Vila Mariana por duas horas.

Biólogo, jornalista e autor de mais de 30 títulos, Couto não se mostrou acanhado ao lançar-se em sua mais recente aventura: escrever a primeira trilogia de romances históricos, As Areias do Imperador, com lançamento recente do segundo volume, Sombras da Água (392 páginas, R$ 44,90, em média). Os livros retratam a paixão de uma jovem da etnia Vatxopi, Imani, com um sargento português, Germano de Mello, em meio à guerra entre o rei do Estado de Gaza, Ngungunyane, e o país europeu no século 19.

Repleto de simbolismos de sua terra natal, o romance inspira até aqueles que não compreendem a magia de se assumir a identidade de um povo e a forma como as tribos africanas conseguem envolver os leitores com suas lendas locais. “Tudo começa sempre com um adeus”, diz Imani, no primeiro capítulo do segundo livro da trilogia. Representante de uma comunidade pequena e quase extinta pela guerra, a jovem negra conquistou o coração do sargento, mostrando que o grupo ao qual pertencia poderia ter tanta sabedoria e cultura quanto os portugueses. Imani não é apenas uma índia que fez com que um homem branco se apaixonasse por ela, mas também é símbolo do feminino e da representação da mulher como força da natureza, sempre presentes em suas palavras, ações e maneiras de transmitir seus ensinamentos para o sargento.

Assim como seus contos, poesias e crônicas, o moçambicano perpetuou a atmosfera de sedução com versos e ritmo, respondendo às perguntas de Fuks e do presidente da Companhia das Letras, Luiz Schwarcz. “Escrevo de forma obsessiva. Escrevo ao invés de viver. Não sei se consegui responder sua pergunta”, disse, quando questionado sobre suas técnicas literárias e a forma como encara a realidade. Lenna, Fabiana e as perguntas de Fuks e Schwarcz conseguiram fazer com que o poeta expressasse parte de sua complexidade em respostas curtas, porém abrangentes. “Quando te conheci, disse que queria aprender a ter domínio de minha técnica como escritor e você me respondeu: ‘Desculpe, eu não sei como fazer isso. Nunca fiz’. Acho que você me mostrou como perder o controle em minha literatura”, afirmou Fuks.

Colorida com versos que saíam naturalmente dos lábios do autor, a noite foi repleta de poesia – quando não pela leitura de alguns capítulos de Sombras da Água, pela voz estonteante das cantoras, que entoaram cânticos que conseguiam retratar o misticismo e a riqueza dos povos africanos. Por coincidência ou destino, Lenna, em seu corpo esguio e pele negra, é de origem moçambicana e praticamente faz parte da trilogia do escritor, pertencendo também à etnia Vatxopi. Os barulhos que davam ritmo à narrativa da cantora pareciam ter surgido de uma das linhas escritas pelo autor e conseguiam ambientar toda uma história, contada a partir de um romance real, entre um homem, sua terra e as palavras.




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