Não tem para ninguém

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Vanessa Soares

Todo mundo tem deficiência em alguma área da vida. Uns têm dificuldade com matemática, outros em lidar com pessoas. Tem quem nasce com os dois braços, tem quem venha ao mundo sem as duas pernas. Uns perdem a visão e outros, mesmo com os olhos em condições saudáveis, não conseguem enxergar nada diante de si. A verdade é que todo indivíduo sofre de alguma limitação, seja ela física, intelectual, emocional ou de qualquer outra espécie. O que faz a diferença, independentemente de qual seja a necessidade de cada um, é como se reage diante dessas dificuldades. Algumas pessoas resolvem ir além, outras se entregam ao sofrimento e desistem antes de tentar. Não é o caso dos atletas que representarão o Brasil a partir de 7 de setembro na Paraolimpíada do Rio.

Dando continuidade à maior festa do esporte mundial, 279 atletas formam a maior delegação da história do País. Ao todo, são 181 homens e 98 mulheres, além de 23 acompanhantes e 195 profissionais técnicos, administrativos e de saúde, que compõem o time brasileiro. Deste montante, 44 atletas de 11 modalidades já subiram ao pódio em Jogos anteriores. Entre eles, está o nadador Daniel Dias, 28, detentor de nada menos do que 15 medalhas – dez de ouro, quatro de prata e uma de bronze – conquistadas em Pequim (2008) e Londres (2012), além de ser dono de 14 títulos e seis recordes mundiais.

A natação entrou na vida do atleta por acaso. Após seu pai, Paulo Dias, assistir a uma palestra na ADD (Associação Desportiva para Deficientes), Dias deu início aos treinos. “A natação não estava em meus planos, mas a pessoa que nos atendeu disse que tinha o perfil. Em oito aulas aprendi os quatro estilos. Descobri, então, o dom que Deus havia me dado. Só faltava lapidar”, relembra o atleta. O menino de Campinas, no Interior de São Paulo, que nasceu sem os braços e as pernas, no entanto, encontrou dificuldades no começo da carreira como qualquer atleta. “No início, tive que enfrentar a falta de patrocínio e dificuldades para treinar, pois precisava viajar de ônibus um percurso de 55 quilômetros, mas que demorava uma hora e meia a duas horas”, conta. Nem por isso desistiu. “Sou apaixonado pela natação. Vejo o esporte como grande ferramenta de inclusão social”, acrescenta. Com dedicação e esforço, Dias se tornou o atleta a ser batido em sua modalidade esportiva. Agora, às vésperas dos Jogos Paraolímpicos, as expectativas são as melhores. “Será uma emoção única competir em casa”, finaliza.

Já a mesa-tenista Bruna Alexandre, 21, perdeu o braço direito aos 3 meses, após trombose provocada por vacina mal aplicada. O esporte entrou na sua vida aos 7 anos por meio do irmão mais velho, que já praticava a modalidade. “Estava muito indecisa. Gostava de futsal, skate e ciclismo. Por fim, acabei escolhendo o tênis de mesa, pois é um esporte que requer muita persistência, treino e malandragem. Precisa da cabeça e isso me interessou bastante”, explica. Nascida em Criciúma, Santa Catarina, Bruna precisou deixar a família para se dedicar ao esporte e, atualmente, mora em São Caetano, onde treina com a Seleção olímpica. “A cidade me acolheu de braços abertos. Aqui sempre recebi muito apoio e isso me ajuda a conseguir meus objetivos.”

Apesar da deficiência, Bruna nunca se fez de coitada ou se sentiu inferior a outros atletas. Tanto que já competiu em mundiais com concorrentes sem nenhuma deficiência. Para incentivar o apoio aos Jogos Paraolímpicos, a mesa-tenista participou, ao lado dos atores Paulo Vilhena e Cleo Pires, e do paratleta Renato Leite, da campanha Somos Todos Paralímpicos, divulgada pela revista Vogue. Apesar da polêmica gerada em torno da campanha – os atores aparecem nas fotos com o corpo dos atletas –, Bruna acredita que o retorno foi positivo. “Minha deficiência estava na foto e achei interessante. Como as imagens da Cleo Pires e do Paulo Vilhena são muito fortes, foi benéfico para o esporte paraolímpico. As pessoas puderam ver que as deficiências existem. Então, isso mostra que tudo é possível de acontecer na vida. Fiquei orgulhosa em participar da campanha.” Para os Jogos, Bruna deseja brilhar. “Estou melhorando. De Londres para cá posso ver evolução grande. Espero poder jogar da melhor maneira. Quero que o povo veja que o tênis de mesa do Brasil tem condições de lutar”, encerra.

Diferentemente dos atletas anteriores, o andreense Alessandro Rodrigo da Silva, o Gigante, 32, da APADV (Associação de Pais, Amigos e Deficientes Visuais), em São Bernardo, teve que aprender a conviver com a deficiência visual depois de adulto, quando perdeu a visão aos 28 anos. Com a ajuda de um professor que lhe ensinava Braille, conheceu o atletismo e se encontrou no arremesso de peso e lançamento de disco. Em 2015, apesar do pouco tempo de carreira esportiva, trouxe para casa duas medalhas de ouro do Parapan de Toronto e, atualmente, detém o primeiro lugar no ranking mundial de lançamento de disco. “Minha expectativa é conseguir fazer na Rio tudo o que venho treinando e, assim, subir no ponto mais alto do pódio”, declara, confiante.

Outra modalidade que promete brilhar é o futebol de cinco, que já garantiu ao Brasil três medalhas de ouro. E um dos jogadores da Seleção Brasileira, o ala Gledson da Paixão Barros, 25, também atleta da APADV, é um dos destaques do time. O jogador perdeu a visão aos 6 anos, mas a paixão pelo futebol já existia. “Comecei a jogar com 12, mas já gostava do esporte. Sempre disse que gostaria de ser jogador de futebol”, relembra. Como não poderia deixar de ser, Barros almeja ajudar o time na conquista de mais uma medalha dourada. “A expectativa é a melhor possível. Seria meu segundo ouro consecutivo, o quarto da Seleção Brasileira. Se Deus quiser, o título virá e seguiremos trabalhando duro.”

Com a delegação brasileira composta por tantas estrelas que são exemplos de superação no sentido real da palavra, o CPB (Comitê Paraolímpico Brasileiro) almeja conquistar o quinto lugar no ranking geral de medalhas contra o sétimo lugar dos Jogos de Londres 2012, quando o Brasil garantiu 43 medalhas no total (21 de ouro, 14 de prata e oito de bronze). O negócio agora é cruzar os dedos e torcer muito para que cada um desses atletas atinja seus objetivos e brilhe. Eles merecem a audiência e torcida tanto quantos os outros. Nem mais nem menos. O espetáculo? É garantido.

 



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