O silêncio do inocente

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Miriam Gimenes

Omar Daqneesh tem apenas 5 anos. Ele nasceu junto com a guerra em seu país, a Síria. Não sabe o que é viver em um lugar tranquilo, poder brincar nas ruas, ir a um parque com a família aos domingos para se divertir. Os combates em Aleppo, região onde mora, são considerados os mais violentos desde o início do conflito entre as forças rebeldes e os defensores do regime de Bashar al Assad. Tem sua inocência roubada todos os dias pela guerra, que quase levou também seu bem mais precioso: a vida.

A imagem do pequeno sangrando dentro de uma ambulância, todo empoeirado, é forte. Ele havia acabado de ser resgatado dos escombros do edifício alvo de um bombardeio aéreo, onde também estavam seus pais e outros três irmãos, com idades de 1, 6 e 11 anos, e foi levado prontamente ao hospital. E a sua feição, em choque, foi o que mais me chamou a atenção.

O médico que o tratou, identificado como Mohammad, disse em entrevista à rede de televisão norte-americana ABC News que ele ficou bem e não sabia ter sido vítima de um bombardeio. Estava apático. A psicóloga infantil Daniella Freixo de Faria explica que pequenos sob o efeito da guerra têm probabilidade de desenvolver danos emocionais graves. “Transtornos podem surgir como depressão, agressividade, pânico, dificuldade na socialização, entre outros. As crianças são nosso futuro, portanto, é crucial que cuidemos enquanto adultos do mundo que oferecemos para elas hoje. A violência da guerra é inadmissível, assim como a doméstica ou a urbana.” Quem passa por este tipo de situação não sabe a definição de infância. “Toda inocência, leveza, a liberdade do brincar, do natural crescer e do direito de aprender são tomadas pela preocupação prévia com assuntos que dizem respeito ao mundo dos adultos.” Sem referências positivas, crescem inseguras e tristes.

Sempre me sensibilizei muito com essas histórias envolvendo crianças e depois que virei mãe isso começou a me afetar de uma tal maneira que não consegui tirá-lo dos meus pensamentos. Minha vontade era de pegá-lo no colo, abraçar bem forte e dizer que tudo ia ficar bem. Em minhas divagações, te daria um banho, cuidaria de seus ferimentos, colocaria uma roupa bem bonita e o levaria para conhecer um quarto muito lindo, todo branco, no Tittenhurst Park, em Ascot, Inglaterra. Foi lá que com um piano John Lennon fez, em 1971, um de seus principais sucessos: Imagine, maior hino pela paz e união de todos os tempos.

Te contaria a história da canção, uma bela harmonia de quatro notas que prega a igualdade absoluta criada pela dissolução dos governos, fronteiras e religiões. A colocaria para tocar e o embalaria até dormir um sono tranquilo. Mas como disse, tudo isso não passa de fantasia partilhada entre eu e Lennon: “Imagine todas as pessoas vivendo a vida em paz. Talvez você diga que eu sou um sonhador, mas não sou o único.” Não mesmo. O difícil é voltar à realidade e saber que existem milhares de crianças em situação idêntica à do pequeno sírio: no mesmo bombardeio, cinco delas não tiveram a sua ‘sorte’. E Omar, identificado no hospital como M10, foi, literalmente, apenas mais um número.

 



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